A busca por proteção contra ansiedade, cancelamento e exposição excessiva nas redes sociais pode reduzir a disposição de jovens para conviver com opiniões divergentes e participar do debate político. A conclusão está no livro Curadoria do Eu: quem está selecionando quem?, da pesquisadora e doutora em Comunicação Catharina Vale, publicado pela Editora Gog Ideias.
A obra reúne uma investigação realizada durante cinco anos com brasileiros de 21 a 34 anos. O estudo analisa como o cansaço provocado pela hiperconexão, pelos estímulos constantes e pela polarização interfere na participação política e na discussão pública.
Autoproteção e isolamento
A autora chama de “curadoria do eu” a escolha consciente de filtrar conteúdos, notícias e contatos para evitar situações associadas a medo, ansiedade e desgaste emocional. A estratégia funciona como uma forma de lidar com a saturação de informações, mas também pode estimular autocensura e isolamento em grupos com opiniões semelhantes.
Segundo a pesquisa, esse comportamento dificulta o contato com o contraditório. Ao permanecerem em comunidades alinhadas às próprias ideias, os jovens tendem a demonstrar menor tolerância à divergência, o que reduz a pluralidade e a disposição para o diálogo coletivo.
“A curadoria é uma possibilidade de selecionar somente o que não causa medo ou ansiedade”, afirma Catharina Vale. Para a autora, essa escolha tem impacto sobre a pluralidade e a democracia, porque o esforço para lidar com a exaustão das plataformas pode afastar os usuários das condições necessárias à liberdade e ao diálogo.
Interesse por causas e distância dos partidos
A investigação também identifica interesse dos jovens por causas sociais, como meio ambiente, direitos humanos, saúde e educação. Ao mesmo tempo, aponta rejeição às instituições formais e aos partidos políticos tradicionais.
Nesse contexto, a política passa a ser percebida de maneira mais individualizada, informal e fragmentada. A dinâmica das plataformas simplifica debates complexos em respostas de aprovação ou rejeição, favorecendo a polarização afetiva e a ascensão de figuras emergentes e outsiders.
O livro tem lançamentos no Brasil e em Portugal, com eventos no Congresso de Comunicação Pública, em Brasília, e nas cidades do Porto, Barreiro e Lisboa.




