A Polícia Federal questiona a estrutura financeira usada para receber recursos associados a Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O fundo Havengate Development Fund LP, ligado a Eduardo Bolsonaro, ficou quase quatro anos sem atividade operacional relevante antes de receber US$ 12,3 milhões entre fevereiro e setembro de 2025.
O relatório integra a investigação sobre Flávio Bolsonaro por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A PF apura a origem dos recursos, a forma como foram transferidos e a compatibilidade entre a estrutura financeira e a finalidade declarada para o filme.
Fundo criado para imóvel no Texas
Criado em 2020 nos Estados Unidos, o Havengate tinha como objetivo original um empreendimento imobiliário no Texas. Segundo os investigadores, o projeto não avançou e o fundo permaneceu sem operação relevante por anos. A movimentação foi retomada em 2025, no período em que começaram os repasses relacionados a Dark Horse.
A primeira transferência identificada foi de US$ 2 milhões, enviada pela empresa Entre Investimentos. Para a PF, a reativação de um fundo criado para fins imobiliários e sem operação ativa, usado em remessas internacionais destinadas a uma produção cinematográfica, é um dos elementos que justificam o aprofundamento da apuração.
Os documentos também apontam que Eduardo Bolsonaro orientou como os recursos deveriam circular nos Estados Unidos. Em mensagem ao publicitário Thiago Miranda, interlocutor entre Eduardo e o banqueiro Daniel Vorcaro, ele escreveu: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo.”
Eduardo também indicou Altieris Santana para reuniões presenciais sobre a administração dos valores. A Procuradoria-Geral da República considerou que a preocupação com o trajeto do dinheiro deve ser analisada no conjunto da investigação.
Valores do filme entram na apuração
O acordo com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, previa aporte total de R$ 134 milhões. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido pagos. A PF apontou uma discrepância entre o valor e os custos normalmente observados em obras brasileiras de porte semelhante.
Mensagens apreendidas indicam que Flávio Bolsonaro acompanhava os pagamentos e cobrava Vorcaro sobre os repasses. Em 16 de setembro de 2025, houve registro de uma ligação entre os dois, na mesma data em que os investigadores identificaram uma última remessa de US$ 1,6 milhão.
A PF verifica se os aportes fizeram parte de uma relação comercial regular ou se representaram eventual vantagem vinculada ao cargo público ocupado pelo senador. Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma que os recursos foram destinados exclusivamente à produção do filme.
A abertura dos documentos ocorreu após uma disputa no Supremo Tribunal Federal sobre o sigilo da investigação do caso Banco Master. André Mendonça liberou novos procedimentos na noite desta sexta-feira (11), incluindo materiais relacionados ao financiamento de Dark Horse.
Alexandre de Moraes questionou a liberação inicial e afirmou que cerca de 180 arquivos e documentos digitais ficaram fora do material disponibilizado aos gabinetes. Cristiano Zanin defendeu o acesso integral aos elementos da investigação.



