Chegar às posições mais altas da fila ranqueada de League of Legends demonstra que o jogador domina mecânicas, executa jogadas e utiliza bem os recursos do personagem. Para atuar no competitivo, porém, é preciso transformar essa habilidade individual em decisões coordenadas com uma equipe.
Calid “Moita” Reis, coach da LOS Academy, aponta comunicação, entendimento tático, disciplina e capacidade de aprender como partes dessa preparação. No ambiente profissional, os jogadores precisam funcionar como uma unidade: cada decisão depende das informações disponíveis para os companheiros e do plano coletivo.
A formação também depende do treinador
Moita começou tentando seguir a carreira de jogador, mas permaneceu cerca de seis meses no competitivo antes de perceber que se interessava mais por estudar o jogo. O convite de um amigo para treinar uma equipe abriu esse caminho. Enquanto começava a faculdade, ele conciliava os estudos com as partidas de treinamento e uma rotina intensa de análise.
“Passava a noite e a madrugada estudando LoL para ajudar eles com o que dava”, relata. A equipe avançou da divisão de acesso até a primeira divisão da competição que disputava. No segundo split, porém, Moita afirma ter sofrido burnout.
Para ele, o coach pode apontar problemas, revisar decisões, ensinar conceitos e organizar treinos, mas a maior parte da evolução depende do próprio atleta. A estimativa apresentada por Moita é de 75% de responsabilidade para o player e 25% para o coach.
O trabalho também exige mais do que conhecimento tático. Um treinador precisa saber transmitir cobranças, administrar conflitos e lidar com diferentes perfis. Essa tarefa se torna mais delicada nas categorias de base, que reúnem adolescentes. Ensinar estratégia a alguém de 16 ou 17 anos não equivale a liderar essa pessoa.
O papel do Tier 3
Os torneios de Tier 3 funcionam como uma porta de entrada para o competitivo organizado. Neles, os jogadores começam a lidar com treinos estruturados, preparação para adversários, revisão de partidas, pressão por resultados e convivência com uma comissão técnica.
Esse nível também ajuda a formar treinadores. A trajetória de Moita passou por equipes e competições menores antes de sua chegada à LOS Academy. Ele considera a oportunidade na organização um reconhecimento pelos anos de estudo e trabalho no cenário.
Um caminho ainda fragmentado
Na avaliação de Moita, o Brasil enfrenta dificuldades para fomentar um cenário local. A dimensão territorial do país amplia o desafio: é necessário conectar jogadores a equipes, equipes a competições e talentos em destaque aos níveis superiores.
A circulação de conhecimento é outra parte desse processo. No começo da carreira, Moita procurou profissionais experientes, enviou mensagens e pediu orientação. Algumas respostas vieram rapidamente; uma delas chegou cerca de um ano depois. Ele também relata ter conhecido profissionais dispostos a ensinar.
Durante a entrevista, Moita cita o caso de um jogador brasileiro que teria descoberto uma mecânica em treinos internacionais e ouvido de integrantes de uma equipe coreana que eles já conheciam aquilo havia oito anos. Para o coach, a história mostra como regiões competitivas acumulam conhecimento ao longo do tempo.
Para quem acompanha uma partida, Moita recomenda observar o minimapa e a movimentação de um jogador, em vez de olhar apenas para abates ou jogadas chamativas. A posição no mapa, o momento de deixar a rota e a reação aos movimentos adversários ajudam a revelar decisões que o placar não registra.



