O cientista político Christian Lynch avalia que a crise envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro deixou de ser apenas uma investigação sobre suspeitas de irregularidades financeiras. Para ele, o caso passou a envolver a eleição presidencial e a disputa pela futura composição do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em análise publicada nas redes sociais, Lynch relaciona as críticas de Gilmar Mendes e Flávio Dino à atuação de André Mendonça a uma divisão entre grupos dentro da Corte. A interpretação é que Mendonça teria conduzido a relatoria do caso de forma seletiva, dando visibilidade a informações capazes de atingir Alexandre de Moraes e mantendo sob sigilo dados potencialmente prejudiciais a Flávio Bolsonaro e a ministros próximos ao relator.
“De um lado, faria avançar aquilo que possa comprometer Moraes e outros ministros do campo adversário”, escreveu Lynch. Ele também citou o caso de Kassio Nunes Marques, cujo filho, Kevin Marques, recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária por serviços jurídicos tributários, conforme afirma a assessoria do advogado. A mesma assessoria diz que os pagamentos não têm relação com Vorcaro ou com o Banco Master.
Cronologia e conflito no Supremo
Na terça-feira (15), Gilmar Mendes acusou Mendonça de agir com “inequívoco viés político-eleitoral” e questionou o tratamento dado às informações extraídas do celular de Vorcaro. Mendonça contestou as acusações durante a sessão.
Lynch aponta que Mendonça retirou o sigilo de material sobre Moraes em 1º de setembro. No dia 3, Moraes pediu que o relator fosse investigado por direcionar a Polícia Federal contra adversários. As mensagens entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro só vieram a público no dia 11, depois de permanecerem sob sigilo durante meses.
O julgamento sobre as mensagens envolvendo Moraes e Vorcaro foi interrompido após Flávio Dino pedir vista. Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram contra a unificação dos casos de Moraes e Mendonça. Gilmar Mendes, Moraes e Cristiano Zanin defenderam a análise conjunta. Dino afirmou que as situações deveriam receber tratamento processual equivalente e as classificou como “rigorosamente iguais”.
Eleição e futuras indicações
Para Lynch, a eleição presidencial pode alterar o equilíbrio de forças no STF. “A vitória de Flávio alteraria profundamente a correlação de forças no Supremo no próximo quadriênio”, afirmou.
O cientista político considera as aposentadorias compulsórias de ministros e levanta a hipótese de Alexandre de Moraes ser afastado após um processo de impeachment no Senado. Nesse cenário, as cadeiras de Moraes, Fux, Cármen Lúcia e Gilmar poderiam ficar disponíveis até 2030, permitindo a Flávio indicar quatro ministros, sob sugestão de Kassio, Mendonça e Fux.
Lynch também associa a divisão atual às divergências em julgamentos sobre a tentativa de golpe de Estado. Segundo ele, Mendonça, Fux e Kassio adotaram posições jurídicas diferentes das defendidas pelos ministros que apoiaram a responsabilização criminal de Jair Bolsonaro e outros acusados.
A interpretação sobre Flávio Bolsonaro
Na avaliação de Lynch, as suspeitas de corrupção são o objeto das apurações criminais, mas o ponto central da crise política está no uso das informações encontradas. Ele sustenta que a divulgação integral do conteúdo do celular de Vorcaro poderia mostrar se as relações do ex-banqueiro alcançam os diferentes grupos envolvidos na disputa.
É nesse contexto que o cientista político interpreta a defesa de Gilmar Mendes por um acesso mais amplo ao material. Para Lynch, a investigação completa poderia contrariar a ideia de que os elementos comprometedores estão concentrados apenas no grupo adversário de Mendonça.
Ao concluir sua análise, Lynch afirma que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro beneficiaria o grupo de Mendonça na disputa pela composição futura do STF. Em seguida, escreve: “Se Vorcaro tem um candidato, esse candidato só pode ser Flávio Bolsonaro.”
A frase é uma interpretação política do cientista político sobre os interesses envolvidos no caso e não indica que Vorcaro tenha declarado apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro. Lynch conclui que uma investigação integral seria a resposta à suspeita de uso seletivo dos dados do caso Master.


