A campanha de Flávio Bolsonaro tenta apresentá-lo como uma alternativa mais moderada dentro do bolsonarismo, mas enfrenta novas cobranças após a divulgação de conversas do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro. Flávio teria pressionado pela liberação de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro. Ele nega irregularidades.
A produção teria recebido ao menos R$ 61 milhões, enquanto o acordo de financiamento poderia chegar a R$ 134 milhões. Vorcaro está preso e negocia um acordo de delação premiada com potencial para atingir autoridades. Em nota, Flávio afirmou que buscava patrocínio privado para uma obra sobre o próprio pai, sem oferecer vantagens, intermediar negócios com o governo ou receber benefícios.
A tentativa de se diferenciar
A estratégia eleitoral combina a herança do eleitorado de Jair Bolsonaro com uma tentativa de atrair pessoas que rejeitam o estilo e as posições do ex-presidente. Em vídeos publicados nas redes sociais, Flávio aparece com a esposa, Fernanda, e as duas filhas. Ele também se apresenta como o Bolsonaro que tomou vacina, em contraste com a postura do pai durante a pandemia de covid-19.
O senador tem divulgado mensagens sobre Carnaval, feminicídio, creches e direitos das mulheres. Também homenageou Berta Lutz, Antonieta de Barros e Maria da Penha. Para a senadora Damares Alves, porém, Flávio não estaria construindo uma versão moderada do pai, mas revelando um perfil que já seria próprio.
Pesquisas internas da campanha apontaram crescimento entre jovens, integrantes da classe média e mulheres. Em um levantamento de segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio chegou a 45% entre eleitores de 16 a 34 anos, contra 38% do presidente. Entre pessoas com renda entre 2 e 5 salários-mínimos, marcou 44%, ante 40% de Lula. Entre as mulheres, registrou 36%, contra 45% do petista.
Acusações anteriores
A aproximação com Vorcaro se soma às suspeitas relacionadas ao período em que Flávio era deputado estadual no Rio de Janeiro. O Ministério Público acusou Fabrício Queiroz de operar um esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários do gabinete, prática conhecida como rachadinha. Flávio nega as acusações e afirma que os recursos eram usados para contratar informalmente pessoas que atuavam em atividades parlamentares.
Segundo a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões. O Ministério Público afirmou que ao menos R$ 2 milhões foram para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram sacados em espécie. O caso foi paralisado por decisões judiciais, e o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que a investigação foi encerrada após decisão de Gilmar Mendes em fevereiro de 2025.
Também existem questionamentos sobre homenagens feitas por Flávio a policiais militares, entre eles Adriano da Nóbrega, acusado de atuar como miliciano. A mãe e a então esposa de Adriano trabalharam no gabinete do senador. Flávio afirma que não conhecia as acusações criminais contra ele e rejeita qualquer defesa da milícia.
O senador ainda é alvo de críticas sobre sua posição política. O deputado Lindbergh Farias o descreve como integrante da extrema-direita, enquanto Marcelo Freixo afirma que ele representa o mesmo projeto político do pai. Flávio, por sua vez, já disse que um eventual presidente bolsonarista poderia enfrentar a necessidade de usar a força para garantir anistia ou indulto a Jair Bolsonaro caso o Supremo Tribunal Federal barrasse a medida.
A campanha tenta preservar a vantagem entre eleitores bolsonaristas e antipetistas, enquanto disputa um grupo estimado entre 10% e 12% do eleitorado que não se identifica automaticamente com nenhum dos dois polos. As acusações sobre Vorcaro, rachadinha e milícias ampliam o desafio de convencer esse segmento de que Flávio representa uma mudança de estilo sem romper com a base política do pai.




