A Polícia Federal investiga o fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, e possíveis repasses ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A apuração busca esclarecer se parte dos valores foi usada para custear o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos.
Flávio afirma que os recursos foram destinados integralmente à produção de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro (PL). Em entrevista na quarta-feira (14/5), ele negou que o dinheiro tenha sido direcionado ao irmão. Na sexta-feira, voltou a rejeitar essa hipótese e disse que Eduardo vive de uma doação do pai e de reservas próprias.
“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, disse Flávio.
Eduardo também nega ter recebido dinheiro de Vorcaro. Ele afirma que apenas cedeu direitos de imagem e que não ocupou cargo de gestão no fundo. Documentos de produção, porém, apontam que ele e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) aparecem à frente da produção-executiva do filme em contrato assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024, com data de novembro de 2023.
Eduardo declarou ter investido R$ 350 mil no início do projeto e disse que foi reembolsado depois da entrada de investidores. Segundo ele, atuou como diretor executivo no começo da produção e deixou essa função quando o projeto passou a adotar a estrutura de fundo de investimento.
O caminho dos recursos
Documentos financeiros indicam que uma ordem de pagamento de US$ 2 milhões e uma tabela de valores podem estar relacionadas a repasses feitos por Vorcaro a Flávio entre fevereiro e maio de 2025. O montante total dessas operações chega a US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões), distribuídos em seis transferências. Parte desse dinheiro teria sido enviada pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate Development Fund LP.
A Entre é liderada por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, alvo da segunda fase da operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master e Vorcaro. Em março deste ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, integrantes do Conglomerado Entrepay, controlado pela Entre Investimentos.
As autoridades investigam se Vorcaro era um possível proprietário oculto da empresa. A Entre nega vínculo societário, controle ou participação na governança.
Registros públicos do Texas mostram que o Havengate tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo nos Estados Unidos. O fundo aparece como propriedade da Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas. A empresa tem Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana como membros do quadro societário.
Flávio considera compatível a participação de Calixto na administração do fundo, já que o advogado cuidou do processo migratório de Eduardo. Eduardo também defende a atuação do advogado e afirma que ele tem experiência em gestão patrimonial e fundos de investimento.
Eduardo vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Na segunda-feira (11/5), a Procuradoria-Geral da República pediu a condenação do ex-deputado por coação no curso de processo. Em 2025, Jair Bolsonaro enviou R$ 2 milhões ao filho nos Estados Unidos, operação considerada pelo Supremo Tribunal Federal um indício da articulação entre os dois para interferir na atuação do Judiciário brasileiro.
Dificuldade de rastreamento
Fundos offshore são estruturas de investimento localizadas fora do país de residência do investidor. Especialistas do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal afirmam que esses veículos podem ocultar os beneficiários finais e dificultar a identificação dos responsáveis pelos recursos.
Os Estados Unidos não aderiram ao Common Reporting Standard, padrão internacional de troca automática de informações tributárias criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Por isso, a PF depende de cooperação específica com o FBI ou com instituições americanas para investigar a movimentação do Havengate.
Auditores fiscais também questionam a origem dos valores e afirmam que a operação precisa ser analisada para verificar eventual incidência de tributos e possíveis infrações legais.




