Anunciantes verificados pelo Google divulgaram campanhas falsas sobre programas públicos, segundo nota técnica do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As peças foram encontradas entre 12 e 25 de agosto na Central de Transparência de Anúncios da empresa.
O levantamento identificou 50 anúncios relacionados ao Desenrola Brasil, 17 sobre o Sistema Valores a Receber (SVR) e duas peças ligadas à CNH do Brasil. As campanhas envolviam 44 anunciantes e direcionavam usuários para 35 sites diferentes.
Nenhum dos endereços terminava em “gov.br”. Seis imitavam o layout de canais oficiais do governo, em uma prática conhecida como phishing. As peças também reproduziam símbolos e marcas associados ao governo federal, como Gov.br, Canal Gov, Caixa Econômica Federal e o Brasão de Armas do país.
Uma das propagandas mostrava uma mulher sorridente ao lado do símbolo do “gov.br” e trazia a mensagem: “Parabéns! Seu CPF foi aprovado para o Desenrola 2026.” O anúncio imitava a identidade visual do governo, mas não era da administração federal.
Verificação e transparência
O NetLab afirma que todos os anunciantes encontrados haviam passado pela verificação do Google. A empresa apresenta o procedimento como uma forma de confirmar a identidade e a legitimidade de quem anuncia. Após a checagem, o nome e a localização do pagador aparecem na Central de Transparência.
Para os pesquisadores, o fato de campanhas fraudulentas terem passado por esse processo viola as próprias regras do Google e indica um problema de governança da infraestrutura publicitária. A nota técnica não identificou infrações às leis eleitorais relacionadas à propaganda político-partidária.
A Central reúne anúncios exibidos na Pesquisa Google, no YouTube, no Gmail e na Rede de Display, formada por sites e aplicativos de terceiros. Assim, uma publicidade fraudulenta pode aparecer em uma busca por termos como “desenrola” ou “dívida esquecida” e ser exibida novamente em um jogo de celular ou em um site de receitas.
Os pesquisadores também questionam a ferramenta porque ela não permite buscas por palavras-chave nem informa o valor gasto, a quantidade de pessoas impactadas ou o download dos dados. Isso dificulta a localização de campanhas quando o nome do anunciante ou do site não é conhecido.
Anúncios retirados do sistema
Durante o período analisado, 25 dos 50 anúncios falsos relacionados ao Desenrola desapareceram. Não há informação se eles foram moderados pelo Google, removidos por outro motivo ou se expiraram. O NetLab afirma que a falta de histórico pode fazer com que o problema seja maior do que o registrado, mas não descarta ações da empresa contra fraudes.
O Desenrola Brasil foi o programa mais usado nas campanhas. Lançado em maio para pessoas inadimplentes quitarem débitos, ele apareceu nas propagandas falsas até agosto, quando foi encerrado pelo governo federal.
O Google afirmou: “Temos políticas claras que definem as regras para anunciar no Google Ads e utilizamos uma combinação de inteligência artificial, atuando de forma preventiva, e revisores humanos para monitoramento.” A empresa disse ainda que bloqueou ou removeu 374 milhões de anúncios no Brasil ao longo de 2025 e suspendeu 1,3 milhão de contas no mesmo período. Também informou oferecer uma ferramenta para denúncias de possíveis violações.



