A Polícia Federal reuniu mensagens, ligações e encontros entre o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, durante a apuração sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Os registros integram autos cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
A investigação aponta que Flávio participou das tratativas sobre recursos, acompanhou o cronograma de filmagens e cobrou repasses quando a produção enfrentava dificuldades de caixa. O senador primeiro negou ter pedido dinheiro a Vorcaro, mas depois confirmou que buscou recursos. Ele afirma que se tratava de captação privada de patrocínio, nega ter recebido valores e rejeita irregularidades.
Contatos registrados em 2025
O primeiro registro direto localizado pela PF ocorreu em 20 de agosto de 2025. Vorcaro sugeriu um horário, e Flávio confirmou que estava a caminho, em uma conversa que os investigadores associam à realização de um encontro presencial.
Em 8 de setembro, Flávio cobrou repasses para o filme e mencionou pagamentos pendentes e compromissos com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e afirmou que trataria do assunto no dia seguinte.
Em 15 de setembro, Thiago Miranda informou a Vorcaro que Flávio queria apresentar imagens gravadas. No dia seguinte, houve uma ligação entre o senador e o ex-banqueiro. A data coincide com uma transferência de US$ 1,66 milhão feita pela Entre Investimentos para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, conforme dados do Coaf citados na investigação. A coincidência, por si só, não demonstra que a ligação determinou a remessa.
Em 22 de outubro, Flávio disse que as filmagens estavam no terceiro dia e que a produção estava no limite do orçamento. Ele pediu uma definição sobre os recursos e afirmou que precisaria buscar “outro caminho com urgência”. Vorcaro respondeu que verificaria a situação e que havia liberado outra parcela.
Em 7 de novembro, Flávio agradeceu pelo apoio financeiro ao projeto. Em 16 de novembro, tentou telefonar para Vorcaro e pediu orientação. O ex-banqueiro foi preso pela PF na noite de 17 de novembro de 2025, quando tentava embarcar em um jato particular para o exterior. Na manhã seguinte, a polícia deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero.
Linhas da investigação
A PF apura a origem dos recursos, a função das pessoas envolvidas, as remessas ao exterior feitas pela Entre Investimentos, os destinatários dos valores movimentados por fundos nos Estados Unidos e os contratos e comprovantes relacionados ao filme.
Segundo os documentos, Vorcaro teria direcionado R$ 61 milhões à produção por meio do Havengate. Outro conjunto de registros aponta que Flávio teria negociado US$ 24 milhões para o filme, valor equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Também aparecem R$ 75,1 milhões, atribuídos a desembolsos da produtora, e R$ 108 milhões referentes a um contrato entre a ONG de Karina da Gama e a Prefeitura de São Paulo para instalação de wi-fi na capital.
A apuração também envolve Eduardo Nantes Bolsonaro, Mário Luis Frias, Thiago Miranda Silva, Fabiano Campos Zettel, Paulo Sergio Camin Calixto, Altieres Santana e outras pessoas. A PF tenta delimitar a atuação de cada um na produção e nas operações financeiras.
Antônio Carlos Freixo Júnior, ligado à Entre Investimentos, firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. Segundo o material, ele relatou sete aportes no Havengate, realizados entre janeiro e setembro de 2025, que somaram US$ 12,333 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 62,8 milhões pela cotação de setembro de 2025.
O caso tramita em duas frentes no STF. Uma, sob relatoria de André Mendonça, investiga os repasses atribuídos a Vorcaro e inclui Flávio entre os investigados. A outra, sob relatoria de Flávio Dino, apura se a Go Up Entertainment utilizou recursos de emendas parlamentares para financiar o projeto.



