SÃO PAULO — Planilhas de prestação de contas do programa WiFi Livre, administrado pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), apresentam endereços divergentes, coordenadas que apontam para outros municípios e equipamentos registrados como ativos com datas de instalação futuras. Os documentos foram validados pela Prefeitura de São Paulo, responsável pela supervisão do programa por meio da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT).
O ICB recebeu mais de R$ 100 milhões para executar o serviço e é comandado por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O contrato foi assinado em junho de 2024, durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
As inconsistências dificultam a identificação dos locais, das datas de instalação e do funcionamento dos pontos de internet destinados a regiões da periferia da capital. A análise encontrou 37 pontos cujas coordenadas ficam fora de São Paulo, embora os endereços indiquem locais na cidade. Também há erros em CEPs de 17 pontos.
Um equipamento informado como instalado na rua Angelo Bini, em Itaquera, tem coordenadas que apontam para a Ilha de Paquetá, no município do Rio de Janeiro. Outros registros levam a Jundiaí e Sorocaba. Há ainda 16 pontos com CEPs de outras cidades — 15 de Ferraz de Vasconcelos e um de Cotia — além de um código postal inválido.
Datas e fiscalização
Duas planilhas foram analisadas. A primeira, enviada pelo ICB em 19 de janeiro de 2025, reúne 2.673 pontos instalados entre agosto de 2024 e janeiro de 2025. A segunda contém 2.929 pontos e estava entre documentos apreendidos na SMIT em 10 de junho de 2026. As bases têm 2.673 registros em comum e incluem outros 256 pontos.
Em um caso, um ponto na rua Emílio Castro, no Jardim Damasceno, aparece instalado em dezembro de 2024 e com o link ligado. Na outra planilha, a instalação é indicada para dezembro de 2026, embora o equipamento continue registrado como ativo.
O contrato foi prorrogado duas vezes, em junho de 2025 e janeiro de 2026, elevando o valor total para mais de R$ 157 milhões. Em 16 de dezembro do ano passado, a SMIT recomendou novo aditamento por 12 meses e afirmou que a execução havia sido verificada.
A secretaria declarou que os pontos são fiscalizados por monitoramento técnico e georreferenciado e que a execução foi comprovada por documentos e fotografias. Também afirmou que inconsistências cadastrais são comunicadas ao ICB. Depois, a Prefeitura disse que os problemas não comprometem a fiscalização.
O instituto afirmou que as planilhas representam momentos distintos de atualização da base operacional e que a conferência deve considerar a versão mais recente enviada à SMIT. O ICB também declarou usar o georreferenciamento no acompanhamento dos pontos.
O contrato é alvo de investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil de São Paulo. A Polícia Federal apontou indícios de uma triangulação financeira de ao menos R$ 6,1 milhões entre empresas e entidades ligadas a Karina da Gama. A Polícia Civil mencionou “consistentes suspeitas” de desvio de recursos do WiFi Livre para custear a produção de “Dark Horse”.




