Fernando Cerimedo, estrategista político argentino ligado a campanhas da extrema direita na América Latina, está preso preventivamente na Bolívia após ser acusado de planejar um atentado contra Nadia Beller, sua ex-companheira. Ela é atingida três vezes por dois homens disfarçados de entregadores na entrada de um hotel em Santa Cruz de la Sierra e sobrevive.
A justiça boliviana decreta 180 dias de prisão preventiva contra Cerimedo. As investigações indicam que ele seria o autor intelectual da tentativa de feminicídio, enquanto Nadia afirma que o ataque está relacionado a estruturas de manipulação digital controladas por ele.
Conexões políticas e digitais
Cerimedo é apresentado como aliado de Flávio Bolsonaro e próximo de Eduardo Bolsonaro. Os dois fazem uma transmissão ao vivo a 4 de novembro de 2022, na qual questionam o resultado da eleição que levou Lula à Presidência. A informação sobre fraude eleitoral é descrita como uma senha para a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro do ano seguinte.
Em outra transmissão, realizada desde Nova Iorque, Cerimedo e Eduardo Bolsonaro apoiam a candidatura de Flávio Bolsonaro e voltam a atacar as urnas eletrônicas brasileiras. A live ocorre 48 horas após o candidato se reunir com embaixadores estrangeiros no Brasil.
Cerimedo assessora campanhas de Javier Milei e Rodrigo Paz e utiliza inteligência artificial, fazendas de bots e microssegmentação para divulgar conteúdos contra adversários. A estratégia é associada à campanha de Jair Bolsonaro em 2018. Em março de 2025, ele é anunciado como representante, na América Latina, da plataforma Campaign Nucleus, de Brad Parscale, ligado ao campo digital de Donald Trump.
Parscale é registrado em setembro de 2025 como agente estrangeiro responsável pela administração de uma campanha digital de 1,5 milhão de dólares mensais para o governo de Israel. Cerimedo também é fundador do La derecha diario, que adquire a UHN Plus Media em outubro de 2025 para formar um bloco midiático conservador na América Latina.
Estruturas de robôs
A polícia boliviana identifica inicialmente uma minifazenda de robôs que poderia ser usada nas eleições presidenciais brasileiras contra Lula. Os advogados de Cerimedo dizem que os equipamentos são telefones via satélite e modens, não robôs.
Nadia contesta essa versão e relata a existência de duas estruturas na Bolívia e de outra, maior, em Buenos Aires. Segundo ela, os equipamentos sincronizam contas em tempo real, produzem publicações e comentários, inundam redes sociais, segmentam mensagens e podem provocar a derrubada de perfis por meio de denúncias em massa.
A estrutura teria sido usada em Honduras, no processo da nova Assembleia Constituinte no Chile, no Brasil, na Bolívia e na Argentina. Em 2023, Cerimedo admite o uso de contas automatizadas para influenciar algoritmos das redes sociais.
A especialista em comunicação política Natália Aruguete afirma: “O caso Cerimedo mostra um modelo cada vez mais visível”. Para ela, a atuação leva a mesma lógica de uma campanha para outra e de um país para outro.
O episódio é apresentado como parte de uma articulação internacional de grupos de extrema direita, com participação de operadores políticos, plataformas digitais e centros de pensamento associados à difusão do neoliberalismo. A análise também relaciona essa rede à atuação de organizações e estruturas dos EUA na América Latina, especialmente desde 2010.



