MATO GROSSO — A expansão do etanol de milho no Brasil aumenta a pressão sobre a oferta de biomassa usada na geração de energia. A capacidade instalada do setor deve passar de 10,9 bilhões de litros, em 2025, para 25,3 bilhões, em 2030, alta de 132%, segundo estudo do Itaú BBA.
O crescimento exige novas fontes de cavacos de madeira e outros insumos. O plantio de eucalipto, porém, demanda anos e capital, o que cria um intervalo entre a entrada em operação das usinas e a formação de florestas capazes de abastecê-las.
Custo para ampliar as florestas
Andy Duff, analista do Rabobank, estima que a biomassa corresponda a aproximadamente 7% a 8% do custo total de produção do etanol de milho. Se o eucalipto fosse a única fonte utilizada, seriam necessários aproximadamente 816 mil hectares de florestas plantadas para sustentar a capacidade projetada para 2030.
O Mato Grosso concentra parte relevante desse desafio. A capacidade do estado deve crescer de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros entre 2025 e 2030. Para atender a essa produção, o cenário do banco considera aproximadamente 383 mil hectares de eucalipto, contra os atuais 165 mil hectares.
Com custo de implantação e condução de R$ 35 mil por hectare ao longo de 13 anos, os 218 mil hectares adicionais exigiriam investimentos próximos de R$ 7,6 bilhões. Em uma hipótese de menor eficiência industrial e florestal, o valor poderia chegar a R$ 14,3 bilhões.
Em junho, o governo do Mato Grosso e o Ministério Público estadual firmaram um Termo de Compromisso Ambiental para reduzir, entre as grandes indústrias consumidoras, o uso de biomassa obtida com a supressão de vegetação nativa. O Ministério Público depois aceitou o pedido do governo para suspender o prazo de 30 dias destinado à edição do decreto de transição. Naquele momento, não havia nova data limite para a publicação.
Para Duff, a indefinição regulatória dificulta o planejamento e os investimentos. Avaliações internas do Rabobank apontam pastagens degradadas e áreas menos favoráveis à soja como potenciais locais para o cultivo de eucalipto perto de projetos de etanol de milho. Em estudo feito há cerca de um ano e meio, o banco estimou que uma operação capaz de processar 1 milhão de toneladas de milho precisaria de aproximadamente 10 mil hectares de eucalipto.
Integração com a cana
O bagaço da cana-de-açúcar pode fornecer energia para a produção de etanol de milho em usinas que processam as duas matérias-primas. Duff considera haver mais espaço para adicionar milho às usinas canavieiras do que para empresas dedicadas ao milho implantarem canaviais.
São Martinho (SMTO3) e Cargill são citadas como exemplos de empresas com plantas flex, que processam cana e milho. Além do uso da biomassa já disponível, esse modelo permite aproveitar mão de obra e parte da estrutura industrial, como a destilaria.
As plantas full, dedicadas exclusivamente ao milho, continuam competitivas por causa da escala e dos ganhos de eficiência. A integração, por outro lado, enfrenta juros elevados e um ciclo de baixa, apesar da melhora dos preços. A decisão de usar bagaço para processar milho, gerar eletricidade ou vender a biomassa depende do retorno e do investimento exigido.
A economia do milho também inclui coprodutos como os grãos de destilaria destinados à alimentação animal, conhecidos como DDG e DDGs, e o óleo de milho. Para Duff, as operações tendem a permanecer concentradas em regiões com oferta de milho, enquanto a integração deve avançar onde a cadeia da cana já está estabelecida, como Goiás, Triângulo Mineiro e São Paulo.



