A possibilidade de os Estados Unidos restringirem as exportações de diesel aumenta a vulnerabilidade do Brasil, que depende do combustível importado para complementar a oferta doméstica. A avaliação é do Citi, em relatório divulgado nesta segunda-feira (28), em meio ao início do plantio da safra de verão.
A preocupação cresce após Donald Trump defender, na última terça-feira (22), a suspensão temporária das exportações para preservar o abastecimento norte-americano e conter os preços. A medida ainda está em análise e pode ser total ou parcial.
Impacto para o Brasil
De acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), 80% do diesel importado pelo Brasil neste mês vem de refinarias dos Estados Unidos. Os importadores privados seriam os mais expostos, porque o custo externo supera o preço praticado no mercado brasileiro. O subsídio de R$ 2,12 por litro pode não cobrir a diferença e reduzir o incentivo para novas compras.
O Citi também aponta dificuldades para encontrar fornecedores alternativos. A Rússia restringiu exportações após ataques às refinarias, enquanto os conflitos no Oriente Médio reduziram a oferta global.
Para Matheus Spiess, analista da Empiricus, interrupções em refinarias ou o uso quase total da capacidade de processamento podem diminuir a oferta de diesel mesmo quando há petróleo disponível. O combustível tende a ser direcionado aos mercados que pagarem mais.
A Petrobras já contratou 650 milhões de litros para importar em outubro e não prevê compras expressivas no exterior em novembro. A presidente da companhia, Magda Chambriard, avalia a possibilidade de a estatal atender toda a demanda brasileira no próximo plano estratégico.
A empresa planeja converter 173 mil barris diários de diesel S500 em S10 e adicionar 134 mil barris por dia de capacidade, principalmente com o segundo trem da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Ainda assim, o Citi espera um mercado mais apertado para distribuidoras e Petrobras.
Proibição é considerada improvável
O banco considera improvável uma proibição total nos Estados Unidos. A proposta enfrenta cautela do secretário de Energia, Chris Wright, e do setor de petróleo. Uma restrição poderia reduzir as margens das refinarias na Costa do Golfo, levando empresas a processar menos petróleo e afetando também a produção de gasolina e querosene de aviação.
A retirada das cargas norte-americanas também poderia elevar os preços no exterior e prejudicar aliados europeus dependentes dessas exportações. Caso a medida não avance, o Citi vê cenário positivo para distribuidoras e Petrobras, com diesel e diferencial entre o preço doméstico e o preço de paridade de importação (PPI) elevados.
Efeito sobre a carteira de BDRs
A carteira de BDRs da Empiricus para setembro inclui a Valero, uma das maiores refinarias dos Estados Unidos. A tese considera que a oferta limitada de derivados pode favorecer as margens das refinarias.
Matheus Spiess mantém a recomendação. Para ele, uma eventual restrição ampla é improvável e, se avançar, tende a ser temporária. A posição na Valero é seletiva: a carteira mantém exposição ao setor de energia abaixo da participação do segmento no índice de referência.



