NOVA DÉLI — O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirma que os BRICS entram em uma etapa de consolidação, com atenção à integração dos novos membros, à relação com os países parceiros e à organização da agenda do grupo. Segundo ele, ainda não há um secretariado permanente, e cada presidência pro tempore coordena reuniões, documentos e prioridades.
Vieira também rejeita a ideia de que os BRICS sejam voltados contra os Estados Unidos ou pretendam substituir o dólar. O chanceler explica que o uso de moedas locais em parte do comércio bilateral depende de uma decisão das empresas. Ele cita um acordo entre Brasil e Argentina existente desde 2004, que hoje alcança uma parcela pequena das transações entre os dois países.
Comércio com a Índia
A relação entre Brasil e Índia aparece como uma das prioridades econômicas da política externa. Os dois países lançaram a meta de alcançar US$ 30 bilhões em comércio bilateral até 2030. O intercâmbio chegou a US$ 15 bilhões no ano passado, com crescimento de 40%, e deve alcançar US$ 20 bilhões este ano, conforme as projeções mencionadas pelo ministro.
Vieira afirma que negócios envolvendo Petrobras, Embraer, Vale e WEG podem elevar o comércio para além de US$ 30 bilhões antes do prazo previsto. A Embraer atua em interesses comerciais e de defesa, incluindo o KC-390 e os Super Tucanos para treinamento.
O chanceler avalia que a presidência indiana dos BRICS contribuiu para o avanço dessa relação. Ele também destaca o Novo Banco de Desenvolvimento, que, em sua avaliação, deve ampliar financiamentos, garantias e cofinanciamentos de grandes projetos.
Aproximação com a ASEAN
A aproximação com a ASEAN começou no início do governo Lula, em 2023, por orientação do presidente. O Brasil abriu uma representação permanente em Jacarta, tornou-se parceiro de diálogo setorial e trabalha para avançar ao status de parceiro de diálogo, considerado o nível mais alto dessa relação.
O país aderiu ao Tratado de Amizade e Cooperação, que completou 50 anos, e foi o primeiro da América Latina a estabelecer uma representação permanente junto ao secretariado da organização e a aderir ao tratado. O ministro afirma que as exportações brasileiras para os cinco maiores mercados da ASEAN, nos últimos três anos, se igualaram às vendas para os cinco principais parceiros do G7 no mesmo período.
Relações entre Índia, China e Rússia
Para Vieira, a presença de Xi Jinping na cúpula demonstra a importância atribuída pela China aos BRICS. Ele também ressalta o volume do comércio entre Brasil e China, de US$ 171 bilhões, e a relevância das relações comerciais entre Índia e China.
A participação de Vladimir Putin na cúpula é apontada pelo ministro como outro sinal do empenho na organização. Vieira diz que Índia e Rússia mantêm uma relação de muitos anos, com convergências e divergências.
O ministro afirma que a expansão dos BRICS foi positiva, mas que o grupo precisa de um período para estruturar a participação dos novos membros e o relacionamento com os parceiros. A Indonésia foi o último país incorporado à expansão inicial.
Política externa
Vieira define a política externa brasileira como orientada pela paz, pela integração, pela convivência pacífica entre os Estados, pela cooperação e pelo respeito ao direito internacional. Ele afirma que esses princípios estão no artigo 4º da Constituição e diz que o Brasil não busca ser uma potência militar.
O chanceler também destaca a atuação brasileira no exterior, com 225 postos, entre consulados e missões. Na África, são 36 embaixadas. Entre os 11 países da ASEAN, o Brasil mantém embaixadas em nove; as exceções são Brunei e Laos. O país também possui embaixadas na Coreia do Sul e na Coreia do Norte, em Pyongyang.
Vieira cita ainda nove casos de fronteiras resolvidos pelo Brasil por negociação e arbitragem internacional. Segundo ele, o país aceita os resultados dos processos e mantém uma política baseada no cumprimento dos acordos.



