NOVA DÉLHI — A visita do presidente chinês Xi Jinping à Índia, nos dias 12 e 13 de setembro, marca uma nova etapa na tentativa de estabilizar as relações entre os dois países. O encontro, porém, não representa uma redefinição completa dos vínculos, mas uma tentativa pragmática de administrar divergências e evitar novas rupturas.
A avaliação é de Rahul Pandey, pesquisador associado da Vivekananda International Foundation, que analisou fontes em língua chinesa sobre a visita e a aproximação entre Pequim e Nova Délhi. Segundo ele, a melhora do ambiente diplomático não elimina a cautela de acadêmicos chineses diante das divergências acumuladas nos últimos anos.
A posição oficial de Pequim é mais otimista. No encontro com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, Xi defendeu que China e Índia se vejam como “parceiras, e não rivais” e como oportunidades de desenvolvimento. A estratégia chinesa prioriza percepção estratégica adequada, cooperação mutuamente benéfica, administração das divergências — inclusive a questão fronteiriça — e coordenação em instituições multilaterais.
Confiança e economia
Para especialistas chineses, a confiança continua sendo um dos principais obstáculos. Lin Minwang, vice-diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Fudan, afirma que a relação melhorou de modo geral, mas que a reconstrução da confiança é difícil por causa das divergências históricas, da disputa fronteiriça e dos efeitos políticos dos confrontos recentes.
A economia aparece como um motor da reaproximação. Xie Chao, pesquisador do Centro de Estudos do Sul da Ásia da Universidade Fudan, relaciona a mudança ao debate indiano sobre os custos econômicos da confrontação com a China. Setores da indústria eletrônica da Índia demonstraram preocupação com os efeitos das restrições a empresas chinesas sobre produção e emprego.
A Índia busca ampliar sua capacidade industrial e reduzir a dependência da China, mas empresas chinesas ocupam posições relevantes em máquinas, componentes, eletrônicos, energias renováveis e cadeias industriais. Nesse cenário, a retomada seletiva das relações econômicas com Pequim é compatível com uma estratégia de diversificação.
Competição sem ruptura
Liu Zongyi, diretor do Centro de Estudos do Sul da Ásia do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, descreve a estratégia indiana como “coexistência competitiva”. A Índia não pretende romper completamente a relação econômica com a China nem se alinhar ao campo estratégico de Pequim. Nova Délhi procura manter o diálogo enquanto compete nos campos econômico, político e estratégico.
O BRICS oferece espaço para cooperação em finanças, comércio, pagamentos transfronteiriços, moedas locais, clima e financiamento do desenvolvimento. A participação indiana no bloco não significa afastamento dos Estados Unidos, da Europa, do Japão ou de outros parceiros do Indo-Pacífico. A avaliação de Zhu Jiejin, da Universidade Fudan, é que a Índia busca atuar como polo autônomo e preservar liberdade de movimento entre diferentes centros de poder.
Os encontros entre Xi e Modi em Kazan, em 2024, Tianjin, em 2025, e Nova Délhi, em 2026, indicam continuidade do diálogo político. Para Pandey, a visita não retoma o período de maior otimismo, mas também não é apenas cerimonial. O objetivo é estabelecer regras para que a competição entre os países não provoque novos colapsos políticos e diplomáticos.



