A crise de reputação do Supremo Tribunal Federal passa a ocupar o centro da eleição de 2026 e modifica a estratégia de Lula e Flávio Bolsonaro. A menos de três semanas da votação, as suspeitas de corrupção envolvendo ministros da Corte e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro deixam em segundo plano propostas sobre economia, saúde e segurança pública.
O impacto é especialmente relevante entre eleitores independentes. Pesquisa Datafolha divulgada no último dia 11 mostra que 85% dos entrevistados não mudaram a intenção de voto após a revelação de 52 mensagens enviadas por Vorcaro a Alexandre de Moraes. Ao mesmo tempo, 4% afirmaram ter trocado de candidato por causa do escândalo, o equivalente a cerca de 6 milhões de eleitores. Outros 7% ficaram em dúvida, contingente estimado em cerca de 11 milhões.
Estratégias opostas
Flávio Bolsonaro explora o episódio para atacar Lula e Moraes. Em um comício na Avenida Paulista, que reuniu cerca de 30 000 apoiadores no feriado da Independência, o senador pediu a saída do ministro do STF e do presidente da República. “Quem vota em Lula está votando em Moraes”, declarou.
A propaganda do senador também acusa o governo de atuar ao lado de uma ala do Supremo que teria descumprido a lei. Durante uma visita ao Ceará, Flávio afirmou: “Sem os ministros do Lula no Supremo, a democracia vive, a Justiça vive”.
Lula tenta condenar os problemas na Corte sem romper diretamente com seus integrantes. Em entrevista à Record, transmitida menos de duas horas depois da sessão do STF, defendeu mudanças no Judiciário, como mandatos para ministros do Supremo, novos critérios de ingresso e limites para a atuação de advogados em tribunais onde parentes são magistrados.
O presidente também disse que não indicou Moraes — a nomeação foi feita por Michel Temer — e acusou André Mendonça de agir por objetivos políticos e eleitorais para favorecer Flávio Bolsonaro. Mendonça conduz a investigação sobre o caso Master e pediu a abertura de investigação sobre Moraes com base em relatório da Polícia Federal.
Efeito nas pesquisas
Na pesquisa mais recente da Quaest, Flávio aparece numericamente à frente de Lula no segundo turno, com 42% contra 40%. Entre as mulheres, Lula caiu de 47% para 41% nas intenções de voto, enquanto Flávio passou de 35% para 38%. Entre os evangélicos, o presidente recuou de 33% para 28%, e o senador avançou de 48% para 51%.
A professora de ciência política Mayra Goulart avalia que as suspeitas favorecem a campanha de Flávio e dão mais coesão ao grupo político do senador. Para ela, a crise deve continuar influenciando a eleição e prejudica a campanha de Lula.
A propaganda do PT tenta responder associando Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro. O secretário nacional de comunicação do partido, Éden Valadares, afirma que há um único candidato à Presidência investigado por envolvimento no escândalo do Banco Master.
A crise também aumenta a desconfiança em relação ao Supremo. A última pesquisa Quaest aponta um número recorde de eleitores que não confiam ou confiam muito pouco na Corte. A corrupção, que não estava entre as principais preocupações no início do ano, aparece atrás apenas da segurança pública. Com isso, o STF e as suspeitas contra seus ministros passam a ser temas obrigatórios para os candidatos na tentativa de conquistar o eleitor independente.



