NOVA DÉLHI — Os países do BRICS aprovam uma declaração conjunta que amplia a agenda política, econômica e institucional do bloco e reforça a defesa de maior participação do Sul Global nas estruturas de governança internacional.
Com 140 parágrafos e quase 18.000 palavras, o documento aborda conflitos no Oriente Médio, inteligência artificial, finanças, comércio, agricultura, segurança alimentar, tecnologia e reformas das instituições multilaterais. A aprovação ocorre durante a cúpula realizada sob a presidência indiana do grupo.
O analista Arnaud Bertrand destaca a abrangência do texto e interpreta a declaração como parte de uma estratégia de longo prazo para criar mecanismos de cooperação entre países emergentes. “É enorme: 140 parágrafos e quase 18.000 palavras – sobre uma incrível variedade de assuntos, desde as guerras no Oriente Médio até IA e agricultura”, escreveu.
Reforma das instituições internacionais
A declaração reafirma princípios como soberania, igualdade entre os Estados, solidariedade, abertura, inclusão, consenso e respeito ao direito internacional. A cooperação do BRICS permanece organizada nos pilares político e de segurança, econômico e financeiro e de intercâmbio entre sociedades.
O bloco volta a defender uma reforma abrangente das Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança, com maior representação de África, Ásia e América Latina. Também propõe mudanças na governança do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial para ampliar a voz das economias emergentes e em desenvolvimento.
O documento reafirma ainda a importância da Organização Mundial do Comércio e de um sistema comercial multilateral aberto, transparente, previsível, inclusivo e não discriminatório.
Instrumentos próprios de cooperação
Ao mesmo tempo em que pressiona por mudanças nas instituições existentes, o BRICS reforça iniciativas de integração entre seus integrantes. A agenda inclui pagamentos transfronteiriços, maior utilização de moedas locais e o desenvolvimento de instrumentos financeiros próprios.
A declaração também destaca as atividades do Novo Banco de Desenvolvimento, criado para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. O texto combina a defesa da reforma das organizações multilaterais com a construção de mecanismos próprios de cooperação.
Ciência, tecnologia e inovação aparecem como instrumentos para impulsionar o desenvolvimento econômico e social. A inteligência artificial entra na agenda estratégica, com discussões sobre governança, propriedade intelectual, direitos e representação de diferentes culturas e conhecimentos.
O BRICS também amplia a cooperação agrícola em áreas como intercâmbio de conhecimento, produtividade, tecnologia, sustentabilidade e resiliência diante das mudanças climáticas. A segurança alimentar é tratada como parte da coordenação entre países do grupo.
Para Bertrand, a declaração representa um processo gradual de construção institucional, apesar da diversidade política, econômica e estratégica dos integrantes. “Essa é a nova era: metade do mundo, silenciosamente construindo as instituições que o Ocidente está ocupado em destruir”, escreveu.




