SÃO PAULO — A propaganda eleitoral de Tarcísio de Freitas afirma que todo agressor de mulher em São Paulo é monitorado por tornozeleira eletrônica. Dados divulgados neste sábado (26), porém, indicam que menos de 0,5% dos agressores são submetidos ao monitoramento. A medida não é automática e depende de determinação judicial.
A própria campanha do governador reconhece que uma medida protetiva não implica, por si só, o uso do equipamento. Na prática, a tornozeleira alcança uma parcela inferior a 1% dos agressores, contrariando a ideia apresentada na peça eleitoral.
Feminicídios e atendimento
O número de feminicídios no estado aumentou no primeiro semestre de 2026. Foram 141 ocorrências, ante 128 no mesmo período de 2025. Como uma das ocorrências teve duas vítimas, 142 mulheres foram assassinadas. O resultado é o pior para um primeiro semestre desde o início da série histórica, em 2018.
Os dados anuais também mostram crescimento. São Paulo registrou 221 vítimas em 2023, 253 em 2024 e 270 em 2025. O último desses números foi o maior da série histórica no estado.
A rede de atendimento tem 144 Delegacias de Defesa da Mulher, mas apenas 20 funcionavam 24 horas em levantamento divulgado em setembro. Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, essas unidades registraram 301.916 boletins de ocorrência, média superior a 20 registros por hora.
Parelheiros, no extremo sul da capital, não tem uma Delegacia de Defesa da Mulher. A unidade mais próxima fica em Santo Amaro.
Orçamento e disputa eleitoral
A proposta orçamentária enviada pelo governo para 2026 prevê R$ 16,5 milhões para a Secretaria de Políticas para as Mulheres. O valor é inferior aos R$ 36,2 milhões da dotação inicial de 2025, uma redução de 54,4%.
Na ação específica de enfrentamento à violência contra a mulher, a previsão passa de R$ 10 milhões para R$ 1,64 milhão, queda de 83,6%.
A candidata a deputada estadual Keila Pereira (PCdoB) abordou a falta de uma unidade especializada em Parelheiros e a redução dos recursos em um vídeo de campanha. A coligação de Tarcísio pediu à Justiça Eleitoral a retirada do conteúdo das redes sociais, sob alegação de propaganda negativa.
A juíza Claudia Fonseca Fanucchi negou a retirada imediata. Para ela, o vídeo se enquadra em manifestação política ligada à crítica de políticas públicas e à proteção das mulheres.
Declarações de apoiadores
Em junho, Paulo Figueiredo, apoiador de Flávio Bolsonaro, declarou que “mulher vota muito mal” e disse que mulheres casadas tenderiam a acompanhar o voto dos maridos. Em julho, ele também ofendeu jornalistas da GloboNews e dirigiu uma ofensa sexual à jornalista Miriam Leitão.
As declarações foram repudiadas pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e pelo Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal. Jair Bolsonaro também acumulou declarações ofensivas contra mulheres e jornalistas. Em um caso, foi condenado pela Justiça paulista por ofensas à jornalista Patrícia Campos Mello.



