A capacidade de reduzir os juros de forma duradoura depende do controle das contas públicas, avaliam os economistas Rafaela Vitória e Christopher Garman. Para eles, o Brasil chega a 2027 com endividamento, pressão sobre o orçamento e inflação que ainda limita cortes consistentes na Selic.
Garman, diretor-executivo para as Américas da Eurasia Group, afirma que o controle dos gastos ajuda a abrir espaço para uma queda mais firme dos juros. “Se você controla o gasto, a inflação cai e o Banco Central pode reduzir os juros de forma mais firme”, disse.
O orçamento tem grande parte comprometida com despesas obrigatórias, enquanto o envelhecimento da população aumenta a pressão sobre previdência e saúde. A discussão, portanto, envolve não apenas o nível mínimo da Selic, mas as condições para mantê-la mais baixa sem provocar nova aceleração da inflação.
Vitória, economista-chefe do Inter, diz que o ajuste precisa ser compatível com políticas sociais. A carga tributária corresponde a cerca de 34% do PIB, e os programas de transferência de renda têm papel relevante. Para ela, o desafio principal é transformar em decisão política um caminho técnico já conhecido.
Efeito sobre investimentos e empresas
Enquanto a Selic permanece elevada, aplicações vinculadas ao CDI e títulos públicos mantêm remuneração atrativa. Vitória, porém, afirma que essa condição não é permanente: “Mas aproveitem, pois isso muda”.
O mesmo ambiente encarece o crédito e aumenta o custo das dívidas. Segundo a economista, os efeitos aparecem em reestruturações financeiras e no fechamento de companhias, além de dificultarem os investimentos empresariais. A expectativa de uma economia mais forte em 2027 depende, assim, da abertura de espaço para juros menores.
Recursos brasileiros no cenário global
A conjuntura internacional pode criar uma oportunidade para o país. Conflitos no Oriente Médio, a disputa entre Estados Unidos e China e a fragmentação do comércio tendem a manter a volatilidade, a inflação e os juros globais elevados por mais tempo, na avaliação de Garman.
Ao mesmo tempo, países e empresas procuram cadeias de produção menos dependentes de grandes fornecedores. Esse movimento pode aumentar o valor de ativos brasileiros, apoiados pela produção agrícola em larga escala, pelo petróleo, pelas reservas minerais e por uma matriz energética com forte participação de fontes renováveis.
A expansão da inteligência artificial e de outros setores tecnológicos também pode elevar a demanda por energia e matérias-primas, reforçando esse potencial para o Brasil.



