A avaliação sobre a economia pode influenciar a disputa presidencial, mas os avanços nos indicadores ainda não se transformam, para parte do eleitorado, em percepção de melhora na vida cotidiana. O economista Pedro Faria considera que o governo Luiz Inácio Lula da Silva precisa associar com mais clareza os resultados econômicos às políticas públicas e apresentar uma direção para um possível próximo mandato.
Faria é pesquisador vinculado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele cita o aumento da renda do trabalho, a inflação sob controle, a queda do desemprego e o crescimento dos empregos formais como sinais positivos da economia.
O que dificulta a percepção de melhora
Na avaliação do economista, o endividamento das famílias, o peso das bets e o custo elevado do crédito reduzem a sensação de bem-estar. Ele também aponta a força de um discurso que atribui ao esforço individual os ganhos de renda e responsabiliza o governo pelos problemas econômicos.
A pesquisa Quaest divulgada em 7 de setembro mostra que 38% dos entrevistados consideram que a economia piorou em relação ao ano anterior. Outros 28% dizem que houve melhora, enquanto 31% não percebem mudança. No mesmo levantamento, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro aparecem com 41% das intenções de voto cada um em uma simulação de segundo turno.
Para Faria, o resultado indica que há um bloqueio entre as medidas adotadas e a forma como elas são reconhecidas pela população. Ele afirma que o discurso da campanha de Lula é brando diante do cenário político e econômico e defende uma comunicação mais direta sobre o que está em disputa em 2026.
Renda, picanha e custo de vida
O economista afirma que o poder de compra do salário mínimo em relação à picanha melhorou. Em dezembro de 2022, um salário mínimo comprava 21,56 kg do produto. Hoje, após quatro anos de governo Lula, compra 29,47 kg.
Faria ressalta, porém, que a melhora não significa uma vida fácil para toda a população. O Brasil ainda tem renda média e desigualdade elevada, o que faz com que o discurso sobre custo de vida continue encontrando resposta entre trabalhadores, mesmo com avanços no poder de compra.
Ele também diz que o governo precisa fazer o eleitor relacionar a melhora presente a uma expectativa de continuidade. Na sua avaliação, não basta apresentar os dados: é necessário indicar o que será feito em um possível novo mandato.
Combustíveis e endividamento
Faria avalia que as medidas para conter o avanço dos preços dos combustíveis foram bem-sucedidas na métrica econômica, embora não tenham produzido o mesmo resultado na percepção popular. Ele afirma que o Brasil esteve entre os países que tiveram menor aumento de combustível no mundo e menciona a tributação de exportações e sobrelucros das empresas de petróleo.
No endividamento das famílias, a avaliação é diferente. O problema permanece em patamar alto e não dá sinais de recuo. Para o economista, a redução depende de um período prolongado de aumento da renda, acompanhado por medidas capazes de conter o avanço das dívidas. O crédito caro e as bets estão entre os principais obstáculos.
Faria afirma que os economistas não podem alterar, durante a campanha, as medidas adotadas até o primeiro semestre. Para ele, o caminho disponível é mudar a mensagem sobre a economia.
Escala 6×1 e disputa eleitoral
O economista defende que a campanha destaque a relação entre a eleição e o fim da escala 6×1. Na avaliação dele, o governo deveria apresentar ao eleitor a possibilidade de aprovação da medida caso Lula vença e a manutenção da jornada caso Flávio Bolsonaro seja eleito.
Faria considera que o tema pode mobilizar trabalhadores formais submetidos a essa escala. Ele também diferencia esse grupo dos trabalhadores de plataforma, como motoristas e entregadores de aplicativo, que podem se identificar mais com o discurso do empreendedorismo.
Sobre a influência dos Estados Unidos, o economista afirma que o impacto das tarifas anunciadas por Donald Trump e Marco Rubio é localizado e não teria provocado efeito negativo na aprovação do governo. Para ele, a interferência pode ocorrer por outros meios, enquanto o governo conseguiu associar sua posição à defesa da soberania, embora esse discurso tenha perdido força durante a campanha.




