A trajetória de Carlos Lacerda é reconstituída em Lacerda: coração de tempestade, biografia de Mário Magalhães lançada pela Companhia das Letras em agosto de 2026. O livro acompanha a vida do personagem entre 1914 e 1955, período marcado por disputas políticas, atuação jornalística, prisões e mudanças de posição.
Um dos episódios centrais ocorre na casa de Sebastião Lacerda, avô de Carlos e ministro do STF. O imóvel é alvo de busca e apreensão por ordem do Executivo, sob Arthur Bernardes, em retaliação à atuação política de dois filhos do ministro. “Eles me marcaram com essa brutalidade”, afirma Sebastião. Ele morre pouco depois, aos 61 anos.
Carlos nasce no Rio de Janeiro, em 30 de abril de 1914. Seu pai, Maurício, atua como deputado federal, orador e autor de livros. Sebastião, além de deputado federal, ocupa o cargo de ministro de Estado e chega ao STF. A relação entre avô e neto é de proximidade. “Ele me adotou”, diz Carlos, que décadas depois retoma essa ligação em A Casa do Meu Avô.
Da esquerda ao jornalismo
Aos 16 anos, em 1930, Carlos presencia a ruptura constitucional que afasta Júlio Prestes e coloca Getúlio no poder. O governo provisório proíbe reuniões políticas e sindicais, afasta governadores e restringe a apreciação judicial de processos políticos. Nesse ambiente, Carlos entra na Faculdade de Direito e se aproxima da esquerda, seguindo a tradição do pai e dos tios filiados ao PCB.
Mais tarde, passa a criticar o partido e Prestes. Também se opõe firmemente a Getúlio. Em 1949, funda a Tribuna da Imprensa, depois de abandonar a faculdade sem concluir o curso de Direito. Anos mais tarde, cria a editora Nova Fronteira. Como jornalista, cobre a eleição americana de 1950 e viaja à Europa, principalmente a Lisboa.
Carlos se casa com Letícia, com quem tem três filhos: Sérgio, Sebastião e Maria Cristina. O livro também registra sua passagem pelo interior do Ceará, onde se depara com a fome e com necessidades que, até então, desconhecia.
A crise de 1954
Carlos é preso sete vezes e sofre agressões físicas. Em agosto de 1954, o major da Aeronáutica Rubens Vaz é morto durante uma ação que tinha Carlos como alvo. A investigação passa às forças militares. Em 24 de agosto, Getúlio se mata.
A biografia também registra o erro de Carlos ao se posicionar contra a posse de JK, depois da vitória do presidente nas eleições. O período abordado termina antes de sua eleição para governador da Guanabara, em 1960, e não trata de sua posição sobre o golpe de 1964.
Ao reunir episódios familiares, políticos e profissionais, o livro questiona a tentativa de reduzir Lacerda a um único campo ideológico. A trajetória inclui a aproximação inicial com a esquerda, a oposição ao PCB e a Getúlio, o trabalho na imprensa e a atuação pública que o colocou entre os presidentes que quase chegaram ao cargo.



