As empresas de inteligência artificial enviaram aos órgãos de segurança dos Estados Unidos 84 comunicações de usuários entre julho e dezembro de 2025. O número representa alta em relação aos 41 registros de janeiro a junho de 2025, aos 17 do segundo semestre de 2024 e aos 11 do primeiro semestre daquele ano.
Os dados fazem parte de um levantamento sobre casos em que conversas com chatbots foram usadas em investigações policiais, julgamentos criminais e ações civis. Entre as plataformas citadas estão ChatGPT, da OpenAI; Gemini, do Google; Claude, da Anthropic; e Copilot, da Microsoft.
Conversas usadas como prova
A OpenAI afirma que utiliza um software para identificar sinais de comportamento perigoso. Quando o sistema aponta esse tipo de indício, as conversas são encaminhadas a revisores humanos. Se eles considerarem que há risco iminente e crível de violência, a empresa relata o caso às autoridades.
As empresas também reconheceram falhas no alerta ao FBI em situações envolvendo suicídio e planos de ataques em massa em escolas e outros locais públicos. As companhias prometeram reforçar a tolerância zero ao uso das ferramentas para violência.
Um dos casos citados envolve Bradley Heppner, executivo de uma instituição financeira. Investigado por fraude, ele consultou o Claude sobre possíveis estratégias de defesa. Quando a conversa foi apresentada em corte, Heppner alegou que as mensagens tinham proteção semelhante à comunicação entre cliente e advogado.
O juiz rejeitou o argumento. As proteções não se aplicavam porque o Claude não era advogado e os defensores do executivo não haviam pedido a consulta. Heppner foi condenado por fraude em transações mobiliárias e fraude eletrônica.
Em Michigan, o ChatGPT apareceu em uma disputa entre um vendedor de pneus e seu antigo empregador. Durante uma busca autorizada no celular, foram encontradas perguntas sobre a possibilidade de o Yahoo! recuperar e-mails apagados por ordem judicial. A informação contrariou a versão do réu e levou a juíza a impor o pagamento de honorários adicionais. A ação continuou.
Na Flórida, Darren Zhou relatou ao ChatGPT planos de estuprar e matar a ex-namorada, além de dúvidas sobre cometer suicídio depois. O FBI avisou a polícia, que identificou a mulher com base nas informações da conversa. Zhou foi preso, fez acordo de admissão de culpa e recebeu sentença de oito anos de prisão, com suspensão condicional da pena.
Casos criminais e ações civis
Em Springfield, Ryan Schaefer foi preso sob suspeita de danificar 17 carros no estacionamento da Missouri State University. Durante a busca autorizada em seu celular, a polícia encontrou uma conversa registrada às 3h47 da madrugada, na noite do incidente. Schaefer escreveu: “Cara, parece que estou ferrado. Nem sei direito quantos carros eu destruí”. Ele fez acordo de admissão de culpa por danos a propriedades e recebeu sentença de cinco anos de prisão, com suspensão condicional da pena.
Outro episódio envolve R.K.C., adolescente de 15 anos. Ele perguntou ao ChatGPT sobre uma possível indenização de um milhão de dólares mencionada pelo pai. O pai pretendia processar Meta, Snapchat, TikTok e YouTube por danos atribuídos ao uso dos aplicativos, incluindo vício em redes sociais e problemas de saúde mental.
Snapchat, TikTok e YouTube fecharam acordo para encerrar o processo. A Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, decidiu contestar a ação. Depois, o pai pediu a extinção do processo, citando preocupações com a capacidade do filho de enfrentar um julgamento de várias semanas.
O levantamento também cita um agricultor do Espírito Santo que confessou ao ChatGPT planejar a contratação de um pistoleiro para matar o filho de 8 anos, com o objetivo de não pagar pensão alimentícia à ex-companheira.
Debate sobre sigilo
Sam Altman, CEO da OpenAI, defende que as conversas entre usuários e chatbots tenham proteção semelhante à existente entre advogados e clientes, terapeutas e pacientes, padres e fiéis. A professora de Direito Laura Abelson, da Southern Methodist University, afirma, porém, que, em um ambiente sem regulamentação, é altamente improvável que um juiz considere essas comunicações privilegiadas.
Para Andrew Fegurson, professor de Direito da George Washington University e autor de um livro sobre vigilância digital, o avanço dessas práticas amplia a exposição da vida das pessoas ao escrutínio policial. “Todo o nosso mundo estará disponível à polícia”, disse.



