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Justiça

IA pode encobrir limites do conhecimento na revisão de decisões judiciais

A supervisão humana de ferramentas generativas depende da capacidade de identificar erros, não apenas da presença de alguém no fim do processo.

IA pode encobrir limites do conhecimento na revisão de decisões judiciais

Uma minuta judicial produzida por inteligência artificial pode apresentar normas, precedentes, argumentos e conclusão coerentes antes que o magistrado avalie seu conteúdo. O desafio, nesse caso, não é apenas revisar o texto, mas verificar se quem o confere tem conhecimento suficiente para reconhecer eventuais falhas.

A questão se relaciona ao efeito descrito por Kruger e Dunning em 1999. Nos experimentos que deram origem ao conceito, participantes do quartil inferior avaliavam seu desempenho, em média, no percentil 62, embora os resultados os colocassem no percentil 12. A hipótese é que a falta de domínio também pode reduzir a capacidade de perceber a própria insuficiência.

Na revisão jurídica, a análise da fundamentação, da prova e da aplicação das normas exige conhecimento próximo daquele necessário para produzir a decisão. A inteligência artificial generativa acrescenta uma dificuldade: ela não entrega apenas uma resposta, mas também sinais de competência, como vocabulário técnico, estrutura e referências organizadas.

A expressão ignorância assistida designa a situação em que a falta de domínio deixa de aparecer porque a ferramenta fornece uma resposta completa. Isso não significa que a tecnologia produza ignorância ou que todo usuário seja incompetente. Para quem conhece a matéria, a minuta pode funcionar como ponto de partida. Para quem não a domina, porém, o mesmo texto pode ocultar uma lacuna que antes levaria à pesquisa, à cautela ou ao pedido de auxílio.

O risco da concordância

Estudo publicado em 2026 por Fernandes e colaboradores avaliou 246 participantes em 20 problemas de raciocínio lógico do exame de admissão às faculdades de direito norte-americanas, com assistência de IA. O desempenho melhorou, mas a autoavaliação cresceu ainda mais. Entre os participantes sem assistência, a superestimação aumentava conforme a habilidade diminuía; com a ferramenta, essa relação praticamente desapareceu.

O estudo não analisou magistrados nem a revisão de decisões judiciais. Ainda assim, indica que a assistência pode alterar a relação entre competência e percepção do próprio erro. A familiaridade declarada com a inteligência artificial também não demonstrou capacidade de identificar suas falhas.

A literatura sobre sistemas automatizados descreve o viés de automação, em que a indicação da máquina substitui a busca independente por informação. Há também a adesão seletiva: o usuário tende a seguir mais facilmente uma recomendação quando ela coincide com estereótipos ou convicções anteriores. Sistemas podem ainda produzir respostas ajustadas ao que percebem que o interlocutor deseja ouvir, fenômeno estudado como sycophancy.

A Resolução CNJ nº 615/2025 exige supervisão humana, capacitação para análise crítica e preservação da autoridade final do usuário. A existência de uma pessoa após a máquina, no entanto, não garante por si só uma revisão efetiva. Quanto mais simples for gerar um texto, maior precisa ser a preparação de quem deve contestá-lo.

Uma barreira antes da resposta

No Gaia Assistente, solução de inteligência artificial generativa desenvolvida pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, foi proposto um mecanismo que impede a elaboração da sugestão quando o comando não informa previamente a decisão e ao menos um fundamento jurídico. A ferramenta pode prosseguir diante de uma instrução que indique a improcedência e apresente a base legal, mas interrompe pedidos genéricos para analisar o processo e produzir uma minuta.

O mecanismo não comprova que a conclusão humana esteja correta nem elimina a revisão posterior. Ele exige, porém, que algum juízo exista antes de a máquina fornecer redação, argumentos e aparência de completude.

A supervisão, portanto, precisa preservar a possibilidade de discordar. Auditar o sistema não basta: também é necessário observar como ele é usado e se o usuário mantém condições intelectuais para reconhecer quando o conhecimento termina e a dúvida deve começar.

Texto produzido pela Redação Fato em Curso com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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