A ameaça de Donald Trump de barrar a venda de aeronaves da Bombardier nos Estados Unidos amplia a disputa comercial com o Canadá, que nesta terça-feira (8) colocou em vigor tarifas sobre produtos norte-americanos avaliados em cerca de US$ 20 bilhões por ano.
Trump condiciona a manutenção das vendas da fabricante canadense à transferência da produção para os Estados Unidos. “CHEGA DE VENDER BOMBARDIER NOS ESTADOS UNIDOS! Os produtos deles não são bons o suficiente!”, escreveu na Truth Social. Flavio Volpe, presidente da Associação Canadense de Fabricantes de Peças Automotivas, afirma que a Bombardier usa motores produzidos nos Estados Unidos pela GE e pela Honeywell e emprega aproximadamente 3 mil trabalhadores norte-americanos.
As tarifas canadenses começaram a valer à 0h01, por meio de uma ordem do Executivo. As alíquotas são de 15%, 25% e 50% e incidem sobre centenas de itens, incluindo aço, alumínio, queijo, eletrodomésticos, roupas, cosméticos e equipamentos agrícolas. Esses produtos correspondem a aproximadamente 6% dos US$ 333,6 bilhões exportados pelos Estados Unidos para o Canadá no ano passado.
O governo do primeiro-ministro Mark Carney diz que as medidas reproduzem, em valor e alíquota, as barreiras impostas por Washington a mercadorias canadenses. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirma que o país pode bloquear completamente a entrada de determinados produtos do Canadá.
A tensão aumenta após o fracasso das negociações entre Ottawa e Washington em 21 de agosto. Desde então, Trump anuncia novas tarifas, ameaça empresas canadenses e questiona a autonomia econômica do país. Carney afirma que as exigências norte-americanas podem enfraquecer progressivamente a indústria canadense e deixar setores produtivos “gradualmente desativados no Canadá e eliminados”.
O setor automobilístico está entre os mais expostos. Ottawa teme tarifas de 50% sobre veículos, autopeças e aço canadenses a partir do próximo ano. Componentes e veículos atravessam várias vezes a fronteira durante a fabricação. Trump defende que os automóveis sejam produzidos nos Estados Unidos.
O Canadá também mantém restrições ou proibições à venda de bebidas alcoólicas norte-americanas em oito das dez províncias. As exportações de destilados dos Estados Unidos para o mercado canadense caíram mais de 70% na comparação anual após essas limitações.
A economia norte-americana é cerca de 13 vezes maior, e mais de 70% das exportações canadenses têm os Estados Unidos como destino. Ottawa ainda não aplica tarifas ou restrições ao petróleo canadense, enviado em volume de aproximadamente 4 milhões de barris por dia às refinarias norte-americanas, nem ao potássio usado por agricultores dos Estados Unidos na fabricação de fertilizantes.
A economia canadense cresceu a uma taxa anualizada de 3,2% no segundo trimestre, enquanto a dos Estados Unidos avançou 1,5% no mesmo período. Para o Royal Bank of Canada, as tarifas dificilmente terão efeito relevante sobre o crescimento norte-americano como um todo, embora empresas e setores diretamente atingidos possam registrar perdas expressivas.




