O governador do Tennessee, Bill Lee, suspende todas as execuções previstas para 2026 no estado depois que Christa Pike sobrevive a duas doses de injeção letal. Ele também determina uma revisão abrangente, conduzida por investigadores independentes, para apurar o fracasso do procedimento.
Pike continua hospitalizada e pode voltar ao corredor da morte. A execução ocorreu na quarta-feira 30, após a Suprema Corte dos Estados Unidos revogar uma suspensão concedida poucas horas antes por um tribunal federal de apelações. A defesa havia alegado que abusos sexuais e estupros sofridos por Pike na infância não foram considerados integralmente no julgamento.
Falhas no procedimento
O Departamento de Correções do Tennessee afirma que cumpriu todas as etapas do protocolo aprovado pela Procuradoria-Geral, mas não explica por que a execução não foi concluída. O coração de Pike continuou batendo depois da administração de pentobarbital, um barbitúrico usado em protocolos de execução em vários estados.
A jornalista Kim Chandler relata que Pike parecia desperta durante a aplicação dos medicamentos. Segundo o relato, ela abriu a boca algumas vezes, roncou e ofegou antes que as testemunhas da imprensa fossem retiradas do local. As persianas da câmara de execução também foram fechadas duas vezes.
O advogado Randy Spivey, que acompanhou o procedimento, afirma que sete agulhas foram inseridas apenas no braço esquerdo de Pike. Uma delas, segundo ele, parecia dobrada quando foi retirada. Spivey classifica o sofrimento como “cruel e torturante”.
O advogado de direitos humanos Clive Stafford Smith aponta duas possibilidades para a falha: medicamentos fora da validade ou resistência de Pike a drogas, associada ao histórico de abuso de substâncias. Ele também afirma que médicos não podem participar das execuções nos Estados Unidos e que pessoas sem qualificação específica administram os medicamentos.
Pressão por uma moratória
O caso leva advogados, médicos e líderes religiosos a pedir uma nova moratória nacional das execuções. Sandra Babcock, professora de direito na Universidade Cornell e consultora da equipe de Pike, defende a conversão da pena de morte em prisão perpétua. Bryan Stevenson afirma que quase uma dúzia de execuções malfeitas ocorreu nos últimos anos.
Dados do Death Penalty Information Center indicam que, entre 1890 e 2010, 3,15% de 8.776 aplicações da pena capital apresentaram problemas. A injeção letal teve a maior taxa de erro no período: 7,2%.
A freira Helen Prejean chama o procedimento de “a essência da crueldade” e afirma esperar que o sofrimento de Pike desperte a população para a necessidade de suspender execuções.
A última moratória nacional ocorreu em 1972, quando a Suprema Corte considerou arbitrária a aplicação da pena de morte no caso Furman v. Geórgia. A proibição terminou quatro anos depois. No ano passado, os Estados Unidos registraram 47 execuções em 12 estados, o maior número em 16 anos.
Condenação e histórico
Pike tem 50 anos e foi condenada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, em 1995. As duas estudavam no programa Job Corps, em Knoxville, no Tennessee. A acusação afirma que Pike agiu por ciúme e obsessão, com a ajuda do namorado, Tadaryl Shipp, e de outra jovem.
Shipp tinha 17 anos na época e não pôde receber a pena de morte. Ele cumpre prisão perpétua. A defesa atual de Pike cita traumas, abuso sexual, estupros, abandono familiar, lesão cerebral e problemas de saúde mental não tratados.
A execução seria a primeira de uma mulher no Tennessee em mais de 200 anos. Desde 1976, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos restabeleceu a pena capital, 18 mulheres foram executadas no país, em comparação a mais de 1. 600 homens.


