A ausência de uma cerimônia oficial do governo chileno no 11 de setembro ocorre no mesmo período em que organizações de direitos humanos, sindicatos e grupos estudantis marcham em cidades como Santiago e Antofagasta. A data marca os 53 anos do golpe militar que matou o ex-presidente Salvador Allende.
No último domingo (06/09), uma caminhada em direção ao Cemitério Central de Santiago, onde Allende está enterrado, enfrentou repressão dos carabineros, as forças policiais chilenas. Os atos já vinham sendo realizados desde o último final de semana.
O presidente José Antonio Kast mantém a decisão de não promover uma cerimônia oficial. Ele passa o dia na região de Los Ríos, em atividades governamentais. É a primeira vez, desde a retomada da democracia chilena em 1990, após 17 anos de ditadura de Augusto Pinochet, que o chefe do Executivo não realiza uma cerimônia de recordação do golpe.
A oposição vinha pressionando por uma manifestação do governo. Daniela Serrano, líder do Partido Comunista no Legislativo, afirma que a ausência presidencial envia uma mensagem negativa e enfraquece o compromisso do Estado com a verdade, a justiça e as garantias de não repetição.
O Chile mantém um histórico de cerimônias e medidas relacionadas à memória do período. No início dos anos 1990, Patricio Aylwin promoveu o sepultamento oficial de Allende com honras de Estado. Michelle Bachelet ampliou a cerimônia durante seus mandatos, entre 2006 a 2010 e 2014 a 2018. Mesmo Sebastián Piñera, presidente entre 2010 a 2014 e 2018 a 2022, realizou atos na data.
Gabriel Boric, antecessor de Kast, assinou em 2023, ao lado de outros ex-presidentes, o documento Compromisso pela Democracia, no Palácio de La Moneda. O texto defende a preservação de princípios democráticos diante de ameaças autoritárias, da intolerância e do desprezo pela opinião alheia.
Dados oficiais indicam que cerca de 3,2 mil chilenos foram mortos por agentes do Estado durante a ditadura, enquanto quase 40 mil foram torturados e presos por razões políticas. Grupos de familiares estimam que o total de mortos, desaparecidos, torturados e presos supera os 100 mil.
A relação de Kast com o período também é alvo de críticas. Antes de assumir o poder, no início de 2025, ele nomeou Fernando Rabat para o Ministério da Justiça e Direitos Humanos e Fernando Barros para o Ministério da Defesa. Rabat integrou a equipe jurídica que defendeu Pinochet em acusações relacionadas ao desaparecimento de 119 opositores. Barros foi porta-voz e advogado pessoal do ex-ditador durante sua prisão em Londres, entre 1998 e 2000.
Para o jornalista e historiador Andrés Almeida, a decisão sobre o 11 de setembro expõe a fragilidade da oposição chilena e da esquerda. Ele afirma que a postura do presidente permite ao campo progressista cerrar fileiras, mas em uma posição de retaguarda.



