A escolha de Peter Handke para o Nobel de Literatura de 2019 reacendeu a crise que levou a Academia Sueca a adiar a premiação no ano anterior. O escritor austríaco foi criticado por sua posição sobre as guerras da antiga Iugoslávia e por ter discursado no funeral de Slobodan Milošević.
Handke é autor de A Angústia do Goleiro Diante do Pênalti, Insulto ao Público e A Journey to the Rivers: Justice for Serbia. Pelo último livro, ele foi acusado de minimizar crimes cometidos pelas forças sérvias. Milošević morreu enquanto respondia, sem veredicto, por genocídio e crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia.
Em entrevista ao semanário alemão Die Zeit, em novembro de 2019, Handke negou simpatia pelo ex-líder sérvio e afirmou: “Nem uma palavra do que escrevi sobre a Iugoslávia pode ser denunciada, nenhuma. É literatura.” Ele também criticou a cobertura da imprensa ocidental.
A crise na Academia Sueca
A crise começou em 2017, quando relatos de 18 mulheres acusaram Jean-Claude Arnault de assédio e agressão sexual. Arnault era casado com Katarina Frostenson, poeta e membra da Academia. A instituição financiava o clube cultural do casal, do qual Frostenson era coproprietária, o que criou um conflito de interesses. Arnault acabou condenado por estupro.
A investigação também revelou que Arnault havia sido acusado de vazar os nomes de sete vencedores do Nobel desde 1996. Os vazamentos quebravam o sigilo das deliberações e levantavam a suspeita de apostas antes do anúncio oficial.
Membros deixaram de participar da Academia, mas continuavam ocupando os assentos formalmente. O regimento, criado em 1895, previa que apenas a morte ou a expulsão abririam vagas. Com isso, a instituição ficou com dez membros ativos de 18, enquanto determinadas decisões exigiam 12 integrantes.
A Academia adiou o prêmio de 2018. Para destravar o impasse, o rei da Suécia, Carl XVI Gustaf, alterou o estatuto de 132 anos e permitiu a renúncia formal dos membros. Regras posteriores também autorizaram a Coroa a dispensar, em determinadas circunstâncias, o quórum de 12 acadêmicos para eleger novos integrantes.
Dupla premiação e protestos
Com a crise parcialmente resolvida, a Academia entregou dois prêmios: o de 2018 para Olga Tokarczuk e o de 2019 para Handke. Albânia, Bósnia, Croácia, Kosovo e Turquia boicotaram a cerimônia em protesto contra a escolha.
Dias antes da premiação, questionado sobre o genocídio de Srebrenica, Handke mudou de assunto. Em seguida, disse: “Meu povo são os leitores, não vocês.”



