Avatares gerados por inteligência artificial e vídeos manipulados já fazem parte da comunicação política brasileira antes do endurecimento das regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Observatório IA nas Eleições identificou 15 avatares voltados a comentários sobre política no período analisado. Com os 14 casos encontrados em 2025, o total chega a 29.
Os personagens são fictícios e hiper-realistas, criados para expressar opiniões sobre candidatos, partidos ou temas de interesse público. Um dos perfis mais populares, o da Dona Maria, não está mais no ar. Além dos vídeos, o levantamento registra conteúdos em imagem e áudio, formatos considerados mais preocupantes pelo potencial de desinformação e pela dificuldade de checagem.
Ataques e falta de sinalização
O estudo encontrou 413 conteúdos políticos sintéticos publicados entre 1 de janeiro e 15 de agosto de 2026. Em 63% dos casos, não havia indicação de que o material tinha sido produzido com inteligência artificial. Outros 40% continham desinformação.
As publicações com críticas ou ataques representaram 64% do total. Endossos a candidatos e causas somaram 34%, enquanto 60% das peças adotaram tom jocoso, com mensagens de sátira.
Entre os políticos, responsáveis por 35% das postagens, Flávio Bolsonaro e Mário Frias aparecem como os principais usuários da ferramenta. O levantamento aponta o PL como o partido que mais aplicou o recurso para se comunicar com o eleitor. A maior parte dos conteúdos, porém, foi produzida por usuários anônimos, inclusive para gerar engajamento em perfis falsos.
Lula é o principal alvo
Luiz Inácio Lula da Silva foi alvo de mais de 25% dos conteúdos, com 112 manipulações de imagem ou voz. Flávio Bolsonaro aparece em 57 casos; Jair Bolsonaro, em 38; e Nikolas Ferreira, em 10. Também foram atingidos Alexandre de Moraes, com 13 casos, Dias Toffoli e Janja da Silva, com 5 cada, e Michelle Bolsonaro, com 4.
O TSE determina que as candidaturas informem, de forma explícita, destacada e acessível, quando um conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi usada. A corte também proíbe materiais sintéticos de pessoas reais ou fictícias para prejudicar ou favorecer candidatos. A definição ocorreu depois que o PL exibiu um avatar de Jair Bolsonaro na convenção do partido, em julho.
Para Matheus Soares, um dos coordenadores do projeto, as deepfakes já são um recurso popular na comunicação política e levantam preocupações sobre a interferência no debate público e na escolha do voto.



