Brasília vive uma tensão entre a busca pelo silêncio e a preservação de espaços de convivência, segundo reflexão assinada por Gehysa Lago Garcia. O texto sustenta que a cidade pode manter sua tranquilidade sem interromper manifestações culturais, encontros e formas diversas de ocupação urbana.
A análise parte de um lambe-lambe na Asa Norte com a frase “Brasília goza em silêncio”. A imagem é apresentada como um símbolo da percepção de que algo vem sendo interrompido na cidade, embora essa mudança apareça mais nas conversas, nos movimentos sociais e nos encontros entre amigos do que em números ou relatórios.
O texto recorda a transformação de bares, blocos de rua, calçadas, entrequadras e do Eixão em espaços de encontro. A cidade, antes associada principalmente a gabinetes, estruturas e deslocamentos, passou a ser reconhecida também pela vida cultural e pelo sentimento de pertencimento de quem a considera casa.
A autora afirma que esse movimento agora convive com o fechamento de portas e com a cautela de lugares que antes recebiam encontros. Para ela, quando um espaço encerra suas atividades, os efeitos atingem empregos, trajetórias e sonhos, além da própria rede de convivência.
A reflexão também questiona a distribuição dos efeitos das regras de silêncio. O texto afirma que elas frequentemente recaem sobre coletivos LGBTQIAPN+, expressões culturais independentes, territórios negros, quilombolas e periféricos. A questão, nesse sentido, não seria apenas o volume, mas quem pode ocupar a cidade e ser ouvido.
A proposta apresentada é buscar equilíbrio entre descanso e presença. Brasília, afirma a autora, não precisa escolher entre ser silenciosa e viva. A convivência entre diferenças, a ocupação dos espaços públicos e a possibilidade de novos encontros são descritas como partes da identidade urbana da capital.



