A mensagem do papa Leão XIV neste fim de semana coloca Maria no centro da tradição católica, em meio à repercussão da declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o cristianismo no Brasil. Em vídeo publicado nas redes sociais em 24 de agosto de 2026, ele afirmou que, se for presidente, um de seus primeiros atos será “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Em português, o papa relaciona Maria à compreensão cristã da vida e da esperança ao comentar a experiência de fé na Gruta de Massabielle, em Lourdes, na França. “Maria vem lembrar-nos a grandeza e a amplitude da nossa vocação para a vida, para a vida eterna”, escreveu. Na mesma mensagem, Leão XIV afirma que o local representa um santuário da esperança cristã e que nenhuma fragilidade é rejeitada.
A declaração de Flávio provoca reações entre católicos nas redes sociais e é seguida por manifestações de bispos da Basílica de Nossa Senhora Aparecida. O debate envolve as diferentes interpretações cristãs sobre o papel de Maria.
Divergência entre tradições religiosas
Flávio frequenta a Comunidade das Nações, em Brasília, fundada pelo bispo JB Carvalho. Em um livro publicado em 2001, Carvalho escreve: “Deus odeia o culto a Rainha dos Céus”. O autor usa passagens dos capítulos 7 e 44 de Jeremias para condenar o culto a uma divindade feminina mencionado no Antigo Testamento.
Na obra, Carvalho associa essa tradição a uma narrativa sobre Ninrode, Semíramis e Tamuz e relaciona a chamada “Rainha dos Céus” à imagem de uma mulher com uma criança. Também sustenta que antigas celebrações dedicadas a divindades femininas influenciaram festas e práticas ligadas à devoção mariana.
A tese de que a devoção católica a Maria tenha origem direta no culto a Semíramis não é um fato histórico estabelecido. Na doutrina católica, Maria é venerada, enquanto a adoração é reservada exclusivamente a Deus.
Relação com a igreja
A proximidade de Flávio com a Comunidade das Nações começou antes da atual corrida presidencial. Em 2024, ele e Fernanda Bolsonaro foram batizados na instituição. Em 7 de dezembro de 2025, dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência, o senador fez na igreja sua primeira aparição pública após o anúncio.
A relação de Carvalho com a família Bolsonaro também inclui livros entregues a Jair Bolsonaro durante sua permanência na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Em novembro de 2025, Flávio levou ao pai a obra Metanoia: A chave está em sua mente. Em janeiro de 2026, Michelle Bolsonaro entregou a Jair Bolsonaro A jornada de meninos a homens, publicado em 2019.
A mensagem de Leão XIV distingue a veneração a Maria da adoração devida exclusivamente a Deus e associa a figura mariana à esperança diante da doença, do sofrimento e da velhice. O entendimento contrasta com a interpretação apresentada por Carvalho e ocorre enquanto Flávio usa referências explícitas ao cristianismo em sua campanha presidencial.



