O professor João Cezar de Castro Rocha associa Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei, Giorgia Meloni e outros políticos populistas e de extrema direita à figura de Ricardo III, personagem de Shakespeare que assume abertamente suas ambições. A análise está no livro A era de Ricardo III – Guerra cultural como método, lançado pela editora Autêntica.
Para Castro Rocha, a política contemporânea deixou para trás a forma-Iago, marcada pela dissimulação, e adotou a forma-Ricardo III, que mistura a exposição direta de propósitos com a confusão entre fato e ficção, verdade e mentira. O professor relaciona esse processo ao uso das redes sociais, à circulação de fake news e à criação de bodes expiatórios.
Na avaliação dele, a extrema direita depende da identificação constante de inimigos imaginários para manter suas bases mobilizadas. O ambiente digital, considerado o meio de comunicação mais moderno, seria combinado a um mecanismo antigo de resolução de conflitos: a escolha de um bode expiatório.
Política, redes e eleições
Castro Rocha afirma que líderes da extrema direita chegam ao poder por eleições livres e democráticas ao conquistar pessoas ressentidas com o sistema. A vitória do Ricardo III contemporâneo, segundo ele, é retórica: convencer esse grupo de que o líder representa uma posição antissistema.
Ao comentar as próximas eleições brasileiras, o professor associa Lula a Calibã, de A Tempestade; Flávio Bolsonaro a Ângelo, de Medida por Medida; e Augusto Cury a Falstaff, personagem de Henrique V e As alegres comadres de Windsor. As comparações fazem parte do exercício proposto na entrevista sobre os nomes citados nas pesquisas de intenção de voto.
O professor também prevê a possibilidade de uma fase chamada por ele de Apocalipse-Macbeth, ligada ao agravamento da crise climática e à multiplicação de desastres naturais. Como resposta, defende a desaceleração das práticas capitalistas, da exploração da natureza, do fluxo de estímulos digitais e da uberização do trabalho.
Para Castro Rocha, a crise atual está ligada à forma-capitalismo e à ideia de acumulação infinita de riqueza. Ele afirma que a crise climática expõe a impossibilidade de tratar a natureza como uma fonte inesgotável de riquezas e sustenta que a sociedade precisa imaginar o fim dessa forma de organização para evitar o fim do mundo.



