O Goldman Sachs avalia que aumentou o risco de altas expressivas nas commodities agrícolas com a combinação de três fatores: interrupções no Estreito de Hormuz, novas tensões entre Rússia e Ucrânia no Mar Negro e a possível formação de um super El Niño.
O banco afirma que os mercados entraram em 2026 com estoques relativamente confortáveis, mas que os riscos de valorização cresceram com o avanço dos choques geopolíticos e climáticos e com um ambiente comercial mais protecionista. O BCOM Agriculture Spot Index, da Bloomberg, acumula alta de 24% em relação ao ano anterior, enquanto o trigo avançou 41%.
“Mesmo pequenas interrupções na oferta podem agora gerar movimentos de preços maiores do que no passado”, afirmam os analistas Lina Thomas e Daan Struyven.
Fertilizantes e energia
Pelo Estreito de Hormuz passam aproximadamente um terço do comércio mundial de fertilizantes e cerca de 10% das exportações globais de diesel. Interrupções registradas desde a nova escalada do conflito no Oriente Médio, em julho, podem elevar os custos agrícolas, já que fertilizantes e diesel são essenciais para as lavouras e para o funcionamento de máquinas e veículos.
O risco é imediato para fertilizantes nitrogenados usados em milho, trigo e arroz. A interrupção ocorre durante a janela de compras de mercados como o milho brasileiro, o arroz e a cana-de-açúcar da Índia e o trigo de inverno da União Europeia.
A soja brasileira também está exposta aos fertilizantes fosfatados. O Brasil responde por 62% das exportações globais da oleaginosa e importa cerca de 80% do fosfato utilizado no campo. A escalada no Oriente Médio ocorreu entre junho e julho, durante a principal janela de compras para a soja brasileira, cujo plantio começou em setembro.
Grãos e clima
As tensões entre Rússia e Ucrânia ameaçam entre 15% e 20% do comércio global de grãos. Os embarques marítimos dos dois países estão abaixo dos níveis normais, e os preços do trigo subiram aproximadamente 20% desde julho. O milho também registra recuo nas exportações, com possibilidade de impacto maior a partir de outubro.
A NOAA estima probabilidade superior a 90% de o El Niño alcançar intensidade muito forte no inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. O fenômeno ocorreu apenas três vezes nos últimos 75 anos e pode atingir áreas produtoras com secas e enchentes severas.
O açúcar está entre os mercados mais expostos, devido à concentração das exportações no Centro-Sul do Brasil, na Índia e na Tailândia. O Canal do Panamá, por onde passam 10% do comércio mundial de cereais e 17% do comércio de soja, também pode ter restrições caso os níveis de água caiam entre janeiro e maio.
Para o Goldman Sachs, o protecionismo pode ampliar os efeitos dos choques. Tarifas, controles de exportação, mandatos de biocombustíveis e estoques públicos podem retirar do mercado global um volume maior que o diretamente afetado por uma interrupção. Antes do El Niño de 2023/2024, a Índia proibiu exportações de arroz, retirando aproximadamente 40% do comércio global do cereal do mercado internacional.



