A lobotomia alcançou dezenas de países em poucos anos e foi aplicada em larga escala antes de ser abandonada. Nos Estados Unidos, cerca de 50 mil procedimentos foram realizados entre 1936 e 1972, mas o benefício real ocorreu em apenas cerca de 10% dos casos.
A técnica era chamada de leucotomia pré-frontal e consistia em destruir partes do cérebro como forma de tratamento psiquiátrico. O paciente recebia anestesia geral. O cirurgião fazia perfurações no crânio, na altura das têmporas, e usava um instrumento com fio retrátil para cortar o lobo frontal: seis cortes de cada lado, doze ao todo.
O procedimento era rápido. Os pacientes podiam ser operados no mesmo dia em que chegavam ao hospital e retornar ao internamento psiquiátrico em até dez dias.
A hipótese e o reconhecimento
Egas Moniz desenvolveu a técnica com o neurocirurgião Almeida Lima em 1935. A hipótese era que transtornos mentais resultavam de circuitos cerebrais presos em loops de pensamento fixo entre o tálamo e o córtex pré-frontal. Ao interromper essas conexões, Moniz acreditava que poderia libertar o paciente do delírio.
A ideia ganhou força depois de um congresso em Londres, no qual Moniz assistiu à apresentação de pesquisadores de Yale. Eles haviam removido o córtex pré-frontal de um chimpanzé agressivo, que ficou dócil e quase apático. Moniz então levou a hipótese para a aplicação em seres humanos.
Os resultados dos primeiros 20 pacientes foram publicados em menos de um ano. A comunidade médica internacional recebeu bem a técnica. Em 1949, Moniz recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina pelo desenvolvimento da leucotomia pré-frontal, descrita pelo comitê como uma descoberta “de valor terapêutico comprovado”.
Limitações ignoradas
Os 20 casos iniciais não tinham grupo de controle nem acompanhamento de longo prazo. Parte dos pacientes considerados “melhorados” havia ficado apática e dócil, sem que isso significasse necessariamente melhora da saúde. A cirurgia era irreversível e as taxas de mortalidade chegaram a 20% em alguns levantamentos da época.
Nos Estados Unidos, um documento hospitalar de 1941 projetava operar 18 de 1.250 pacientes, a US$ 250 cada. A estimativa era economizar US$ 351 mil em dez anos com a liberação de leitos.
No Brasil, a primeira leucotomia ocorreu em 25 de agosto de 1936, no Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, pelas mãos do neurocirurgião Aloysio Mattos Pimenta. Foram cerca de 700 intervenções no local até 1949. A prática perdeu força por volta de 1956, com a chegada dos primeiros antipsicóticos.
Moniz continuou defendendo a invenção. Em 1954, um ano antes de morrer, publicou A Leucotomia Está em Causa e classificou algumas críticas como “misticismo” sem base científica. Décadas depois, familiares de pacientes lobotomizados nos Estados Unidos pediram a revogação do Nobel de 1949. O pedido não prosperou, e o prêmio segue registrado em nome de Moniz pela “descoberta do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses”.



