Resultados eleitorais recentes são apresentados como evidência de que conteúdos produzidos por inteligência artificial não determinam, sozinhos, o voto. Na Irlanda, um vídeo falso anunciou a desistência de Catherine Connolly três dias antes da eleição de 2025. Ela venceu com 63% dos votos. No Equador, vídeos manipulados tentaram vincular Daniel Noboa a esquemas de corrupção, mas ele foi reeleito com 56% dos votos em 2025.
Na Eslováquia, um áudio falso atribuído ao candidato Michal Šimečka circulou durante o período de silêncio eleitoral de 2023. O episódio foi tratado como possível exemplo de eleição decidida por IA, mas análises posteriores de Lluis de Nadal e Peter Jančárik apontaram fatores políticos estruturais para a vitória de Robert Fico. Entre eles estava a suscetibilidade histórica de parte do eleitorado eslovaco à propaganda pró-Kremlin desde 2010.
O que os estudos apontam
Para Felix Simon, da Universidade de Oxford, e o psicólogo Sacha Altay, o impacto eleitoral da IA e da desinformação costuma ser superestimado. Uma das limitações é a atenção: o eleitor tem poucas horas disponíveis para consumir conteúdo político, o que restringe o alcance de qualquer tentativa de persuasão tecnológica.
A desinformação sintética também não atua sobre eleitores sem referências anteriores. Pessoas mais propensas a consumir e compartilhar deepfakes já apresentam posições políticas moldadas por vínculos familiares, fatores socioeconômicos e identidades partidárias. Nesse quadro, o conteúdo gerado por IA reforça inclinações existentes, mas não necessariamente converte eleitores indecisos.
A disponibilidade das mesmas ferramentas para diferentes forças políticas ainda produz uma disputa equilibrada. Com o uso disseminado da tecnologia, vantagens exclusivas tendem a desaparecer, segundo essa análise.
Identidade e formação da escolha
A ciência cognitiva descrita por Steven Pinker sustenta que o cérebro não opera como um processador lógico neutro. A razão humana se desenvolveu para produzir e avaliar argumentos em situações sociais, com defesa de interesses individuais e de grupos.
Esse funcionamento aparece no viés do-meu-lado e no raciocínio motivado. A habilidade cognitiva passa a ser empregada na validação de conclusões compatíveis com a identidade política do indivíduo. O voto, nessa perspectiva, também expressa pertencimento e lealdade a um grupo.
Pinker diferencia ainda crenças ligadas à realidade imediata de narrativas políticas e ideológicas sobre acontecimentos distantes ou futuros. As redes sociais, portanto, não criariam sozinhas a disposição para boatos e teorias conspiratórias. Elas funcionariam como um canal de circulação para demandas psicológicas já existentes.
Modelos mentais
David McRaney descreve o cérebro como uma estrutura voltada à previsão. As experiências acumuladas formam modelos mentais pelos quais novas informações são interpretadas. Na assimilação, o indivíduo incorpora um dado sem modificar suas crenças anteriores. Na acomodação, precisa reconstruir esse modelo diante de uma evidência contraditória.
A assimilação enviesada faz com que notícias políticas sejam enquadradas para confirmar convicções existentes, enquanto informações contrárias são submetidas a maior resistência. Por isso, estímulos externos podem reforçar uma posição, mas não obrigatoriamente provocar uma mudança de voto.
Outros casos seguem a mesma direção. Na Alemanha, vídeos falsos sobre ameaças terroristas em locais de votação não alteraram o comparecimento ou o resultado das urnas. Na Romênia, deepfakes de candidatos presidenciais foram usados principalmente em fraudes e golpes financeiros. No Paquistão, Imran Khan utilizou IA para falar da prisão com uma base eleitoral já consolidada.
A conclusão apresentada pelos estudos é que algoritmos e ferramentas de IA não exercem poder soberano sobre a decisão eleitoral. Identidades políticas, vínculos sociais, vieses e modelos mentais formados antes do contato com conteúdos digitais têm papel central na escolha do eleitor.




