O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) vence a eleição regional na Saxônia-Anhalt com 44% dos votos, o melhor resultado de sua história em um pleito estadual. O percentual é o dobro do registrado pela legenda na eleição anterior, realizada cinco anos atrás.
A vitória, porém, não garante o controle do governo. A AfD conquista 39 cadeiras no Parlamento local, enquanto são necessárias 42 para obter maioria absoluta e governar sem aliados.
A seção estadual do partido é classificada pela agência de inteligência doméstica como “extremista de direita confirmada”. As demais legendas tradicionais já rejeitaram qualquer cooperação, mantendo o bloqueio político à extrema direita criado na Alemanha após o fim do Nazismo.
Nenhuma região alemã é governada pela extrema direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 2024, a AfD foi a força mais votada na Turíngia, mas os outros partidos impediram sua entrada no governo.
Negociações para formar o governo
Ulrich Siegmund, líder regional da AfD, indica que não pretende, neste momento, comandar um governo minoritário, embora a possibilidade não esteja descartada. Nesse modelo, a administração precisa negociar apoio a cada votação para aprovar leis e projetos, já que não conta com maioria parlamentar.
Em entrevista à emissora pública ARD, Siegmund afirma que “estenderei a mão a todos aqueles que desejam trabalhar conosco para promover uma mudança política fundamental”. A declaração é direcionada principalmente à União Democrata-Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz e integrante das coalizões que governam a Saxônia-Anhalt e a Alemanha em nível federal.
Alice Weidel, líder nacional da AfD, também pede negociações com a CDU. A secretária-geral da legenda, Franziska Hoppermann, volta a rejeitar a possibilidade de alianças: “Não haverá cooperação com a extrema esquerda nem com a extrema direita”. A derrota eleitoral pode ampliar, dentro da CDU, o debate sobre uma aproximação com a AfD.
Outra possibilidade envolve a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que conquista cinco cadeiras e supera por pouco a cláusula de barreira de 5% dos votos. O partido combina propostas econômicas progressistas com posições sociais ultraconservadoras e compartilha com a AfD posições anti-imigração e favoráveis à Rússia.
A fundadora do BSW, Sahra Wagenknecht, descarta uma coalizão formal, mas admite cooperações pontuais. Com cinco cadeiras, a legenda pode se tornar decisiva: somada à AfD, chegaria a 43, uma a mais que a maioria absoluta. A copresidente Amira Mohamed Ali, no entanto, diz que o partido não pretende apoiar Siegmund como governador e defende um líder apartidário.
Também é possível que a AfD deixe as demais legendas tentarem formar uma coalizão. A CDU obtém menos de 18% dos votos, enquanto o Partido Social-Democrata (SPD) fica com 9,3%, os Verdes com 8,9% e o Die Linke com 8,6%.
Propostas da AfD e reações
Entre as propostas apresentadas pela AfD estão alterar a autoridade do serviço de inteligência estadual, permitir o ensino domiciliar, ampliar o controle sobre livros didáticos, cancelar contratos de radiodifusão com emissoras públicas e criar uma força-tarefa para deportações. O partido também quer exigir uma postura patriótica de organizações financiadas pelo Estado.
Siegmund é questionado ainda por referências ao passado nazista da Alemanha. Em eventos da AfD, o uso separado de seu sobrenome em uma dinâmica de chamada e resposta é associado pelo presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, Josef Schuster, a slogans nazistas. Siegmund também se recusa a classificar o Holocausto como o pior crime da humanidade.
Schuster se declara “consternado” com o resultado. Na França, o ministro das Finanças, Roland Lescure, chama a vitória de “um sinal muito, muito preocupante”. O ministro de Assuntos Europeus francês, Benjamin Haddad, o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, e o chanceler da Itália, Antonio Tajani, também criticam o avanço da AfD.
Líderes de extrema direita comemoram o desempenho. Santiago Abascal, do Vox, na Espanha, classifica o resultado como “espetacular”, enquanto André Ventura, do partido Chega, em Portugal, fala em “vitória histórica”.



