A perda relativa de espaço dos Estados Unidos na economia mundial leva Washington, na avaliação do economista Richard Wolff, a concentrar esforços no Hemisfério Ocidental. A estratégia envolveria pressão econômica, política e militar sobre países como Canadá, Groenlândia, Panamá, Venezuela e Cuba.
Wolff afirma que a ordem internacional criada depois da Segunda Guerra Mundial está se desfazendo e dificilmente será reconstruída nas mesmas condições. Para ele, a política não depende apenas de Donald Trump: uma eventual alternância entre republicanos e democratas poderia mudar os métodos, mas manteria parte importante da estratégia internacional dos Estados Unidos.
Da hegemonia global à influência regional
Segundo o economista, os Estados Unidos saíram de 1945 em posição econômica e militar excepcional, enquanto os impérios coloniais europeus estavam enfraquecidos. Washington apoiou processos de independência política e, ao mesmo tempo, organizou relações comerciais e financeiras que aproximaram as antigas áreas coloniais de sua economia.
O dólar tornou-se a base da ordem criada no pós-guerra. Os Estados Unidos passaram a ocupar posição central no comércio, nas finanças, nos fluxos de capital e nos empréstimos internacionais. A Europa, na interpretação de Wolff, permaneceu como parceira subordinada de uma estrutura liderada por Washington.
“Creio que estamos assistindo ao surgimento de outro esforço e eu o chamaria, por falta de um termo melhor, de uma nova fase do colonialismo norte-americano”, afirmou Wolff.
A China aparece como um dos fatores que alteraram esse equilíbrio. O economista atribui o avanço do país à combinação entre empresas privadas, planejamento estatal e controle político. Ele afirma que Pequim prioriza o desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial, evitando confrontos diretos sempre que possível.
Wolff cita comércio, financiamento e cooperação militar como formas de apoio a parceiros. Também destaca a expansão da capacidade produtiva chinesa e a busca por avanços em alta tecnologia e inteligência artificial. Em sua avaliação, a transformação ocorrida em 40 ou 50 anos pode influenciar os estudos econômicos e históricos sobre o período atual.
Canadá e Groenlândia
O Canadá é apresentado pelo economista como exemplo da tentativa de ampliar a influência norte-americana sobre países próximos. Wolff diz que Washington pretende reduzir a margem para decisões canadenses independentes e menciona a possibilidade de integração aos Estados Unidos, inclusive como 51º estado, ou de divisão territorial.
Na Groenlândia, a estratégia combinaria pressão militar, investimentos e estímulos econômicos. “Será uma mistura de ameaças militares e dinheiro”, resumiu. Segundo Wolff, empresas e lideranças locais poderiam ser atraídas por investimentos, empregos e atividades associadas ao capital estadunidense.
O economista também afirma que Trump apresenta a antiga hegemonia dos Estados Unidos como uma posição de vítima. Nessa narrativa, o país teria sido explorado por parceiros internacionais e estaria apenas reagindo a abusos. Wolff avalia que essa construção permite apresentar ações agressivas como medidas defensivas.
Europa e continuidade partidária
Para Wolff, democratas e republicanos divergem sobre os métodos, mas compartilham o objetivo de conservar o máximo possível da posição internacional construída pelos Estados Unidos. Ele compara essa continuidade à forma como governos sucessivos tentaram desfazer políticas de seus antecessores sem alterar completamente os fundamentos da atuação externa do país.
A Europa, segundo o economista, continua dependente de Washington nos campos econômico, militar e estratégico. Embora tenha reconstruído suas economias e avançado na integração continental depois da Segunda Guerra Mundial, o continente não teria criado mecanismos próprios para negociar em igualdade com grandes potências.
Wolff afirma que a China poderá transformar seus resultados em influência internacional ao divulgar melhor avanços em infraestrutura, tecnologia e propriedade imobiliária. Para ele, o conhecimento dessas mudanças pela população dos Estados Unidos poderia afetar a autoconfiança do país.
Na síntese do economista, os Estados Unidos ainda têm grande capacidade militar, econômica e financeira, mas encontram mais dificuldade para exercer esse poder como nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. A resposta seria preservar uma esfera de influência mais concentrada no Hemisfério Ocidental, enquanto a China mantém o foco no desenvolvimento econômico e tecnológico.




