O aumento das recuperações judiciais de produtores rurais amplia a incerteza no crédito do agronegócio, avalia Marcio Santos, CEO da Bayer Brasil. Para ele, é necessário separar produtores atingidos por eventos climáticos extremos daqueles que enfrentaram dificuldades após investimentos baseados em premissas que não se confirmaram.
Santos afirma que a dificuldade de prever quais produtores conseguirão cumprir seus compromissos eleva o risco para os financiadores e pode influenciar decisões de investimento no país. “Ele adiciona uma incerteza brutal para quem eu dou crédito”, disse.
O executivo afirma que multinacionais com atuação global comparam o Brasil a outros mercados ao definir onde aplicar capital. Na avaliação dele, um ambiente turbulento pode afetar emprego, renda, exportações e geração de divisas.
Apoio a produtores atingidos pelo clima
Santos defende uma política pública para produtores afetados por eventos climáticos extremos. Ele cita as enchentes no Rio Grande do Sul, mas afirma que o estado também enfrenta períodos de seca e que outras regiões brasileiras passaram por situações semelhantes.
A proposta é criar mecanismos, como fundos, para preservar a atividade rural após eventos que estejam fora do controle do produtor. “O nosso agro inteiro vai ficar mais fraco se a gente perder alguém por um evento climático extremo”, afirmou.
O CEO, porém, rejeita o mesmo tratamento para quem assumiu riscos e realizou investimentos que deram errado. Segundo ele, misturar as situações pode estimular decisões inadequadas e justificar maus investimentos. A discussão, diz, envolve recursos da sociedade e deve ser tratada como política pública em um país com recursos limitados.
Brasil continua no plano da Bayer
O Brasil responde por mais da metade da operação da Bayer na América Latina, segundo Santos. A empresa completa 130 anos de presença no país e não discute deixar o mercado brasileiro. A preocupação está nas condições para novos investimentos.
O executivo afirma que os juros são uma contingência do momento. Para decisões de longo prazo, ele aponta como mais relevantes a segurança da propriedade privada e intelectual, o cumprimento de contratos e o avanço das recuperações judiciais. A Bayer também continua avaliando a instalação de uma fábrica ligada à divisão de Saúde do Consumidor. O projeto ainda está em amadurecimento.
Santos afirma que o Brasil tem potencial em categorias como cuidados com a pele e vitaminas e pode ser usado como plataforma de exportação para outros países da América Latina.
Concorrência e cenário climático
Sobre empresas chinesas no mercado de insumos agrícolas, o CEO diz que a concorrência é parte do negócio quando ocorre em condições equivalentes. Ele critica práticas como dumping e diferenças regulatórias que criem vantagens para alguns competidores.
A possibilidade de um El Niño forte também preocupa a Bayer, especialmente nas culturas de soja e milho. Segundo Santos, a região central do país concentra cerca de dois terços das culturas anuais.
O executivo também defende a segurança do glifosato. Agrônomo e com 36 anos de experiência no setor, ele afirma que centenas de estudos comprovam a segurança do produto. Em junho deste ano, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 7 votos a 2, a favor da Monsanto, subsidiária da Bayer, em uma disputa relacionada ao Roundup, produto à base de glifosato.



