A historiadora e jornalista americana Anne Applebaum afirma que o totalitarismo não ficou restrito ao passado e identifica métodos semelhantes em ameaças atuais à democracia. Autora de Cortina de Ferro: O Esfacelamento do Leste Europeu (1944–1956), ela descreve a imposição do regime soviético na Europa Central e Oriental no pós-Segunda Guerra Mundial como um projeto planejado de dominação, e não como consequência inevitável da devastação do continente.
A análise se baseia em documentos de arquivos antes inacessíveis da Stasi, na Alemanha, do Exército Vermelho, além de acervos dos Institutos de Cinema da Alemanha Oriental e da Hungria e de ministérios da Cultura e da Educação. Segundo Applebaum, esses registros mostram como líderes comunistas treinados em Moscou foram levados à região, como emissoras de rádio produziram propaganda e como a repressão policial foi usada para implantar o novo regime.
Controle da sociedade
A historiadora afirma que a prioridade inicial não foi a economia, mas o rádio, a educação e os grupos de juventude. O rádio funcionava como a principal rede de comunicação de massa da década de 1940. Organizações independentes, como grupos escoteiros, movimentos de jovens democratas-cristãos e associações religiosas, passaram a ser vistas como ameaças porque não estavam sob controle estatal.
Na Alemanha Oriental e na Polônia, a participação em grupos juvenis independentes podia levar à perseguição e à prisão pela polícia secreta. Para Applebaum, a ideia de que nenhuma instituição legítima deve existir fora do Estado continua presente na Rússia contemporânea.
A eliminação da propriedade privada ocorreu por estatização direta e também por medidas indiretas. O monopólio estatal do fornecimento de papel, por exemplo, inviabilizou jornais e editoras privadas. Pequenas oficinas e fazendas privadas foram mantidas no Leste Europeu porque as empresas estatais não garantiam o abastecimento básico.
Paralelos atuais
Applebaum afirma que a perda de confiança nas instituições democráticas, nos tribunais e na imprensa livre aparece em processos de virada autoritária. Ela também aponta o uso de linguagem desumanizadora contra adversários políticos, que deixam de ser tratados como concorrentes legítimos e passam a ser chamados de “verme”, “parasita”, “espião” ou “traidor”.
A historiadora vê semelhanças entre os métodos aplicados no pós-guerra e as ações da Rússia nas áreas ocupadas do leste da Ucrânia e na Crimeia. Ela cita prisões de prefeitos, professores e policiais, restrições à língua e à história ucraniana nas escolas, sequestro de crianças para reeducação e aliança inicial com redes criminosas locais.
Para proteger a democracia, Applebaum defende a criação e a proteção de instituições capazes de reconstruir a confiança. Ela considera que teorias da conspiração, raiva, confusão e polarização enfraquecem as sociedades, enquanto veículos de mídia transparentes e instituições comprometidas com a informação verídica ajudam a preservar a cultura democrática.



