Batalhas de “farmar aura” saem das redes sociais e ocupam espaços públicos em diferentes países. Nas disputas, adolescentes usam poses, danças, acrobacias, gestos e referências da cultura pop para tentar convencer o público de que têm mais “presença”.
Há cerca de um mês, a esplanada do Palácio de Belas Artes, na Cidade do México, recebeu uma dessas competições. Menos de duas semanas depois, centenas de adolescentes repetiram a dinâmica em Sevilha, na Espanha. A plateia decide quem demonstra mais carisma, confiança e capacidade de provocar reações.
A expressão combina um verbo comum no universo dos games com uma gíria digital. “Farmar” significa repetir ações para acumular pontos ou experiência. Já “aura” descreve uma qualidade associada a carisma e magnetismo. Na prática, a ideia abstrata vira uma disputa com critérios subjetivos.
Os participantes podem imitar personagens, reproduzir passos de dança, fazer poses, demonstrar habilidades físicas ou distribuir memes. Um dos gestos mais populares é o “six-seven”, acompanhado da repetição dessas duas palavras e sem significado específico.
No Brasil, as batalhas chegam a cidades como São Paulo, Fortaleza, Cuiabá e Manaus. Em São Mateus, na Zona Leste paulistana, cerca de 200 pessoas acompanham uma disputa com participantes fantasiados de Naruto e Seu Madruga. Em Niterói, no Rio, a prefeitura interrompe uma batalha por falta de autorização. Em Cuiabá, no Mato Grosso, um evento muda de local depois que o prefeito Abilio Brunini afirma não saber o que era “farmar aura”.
Da internet para o mundo físico
A psicóloga Stephany Pereira, estudiosa do comportamento das massas, identifica nas batalhas um mecanismo de imitação e incorporação de referências valorizadas pelo grupo. “O ambiente digital pode intensificar essas experiências”, afirma.
O fenômeno se aproxima de outras práticas que passaram da cultura digital para ações coletivas fora da internet, como flash mobs, planking, owling, Harlem Shake e Pokémon GO. A diferença é que, agora, as redes sociais concentram quase todo o repertório: memes, gestos, músicas, poses, personagens e até os critérios para avaliar quem tem “aura”.
O comportamento também é relacionado a episódios históricos de mobilização coletiva, como a chamada “mania da dança”, registrada na Europa medieval e no início da era moderna. No século XIX, Gustave Le Bon estudou mecanismos como imitação, sugestão e contágio em Psicologia das Multidões, publicado em 1895.
A velocidade de propagação é o principal elemento novo. Práticas, referências e formas de participação circulam rapidamente nas redes e chegam às ruas, onde a multidão reproduz os códigos compartilhados no ambiente digital.



