A comida precisa sustentar a experiência mesmo quando as projeções, a música e os efeitos visuais são retirados. Esse é o critério defendido pelo chef Cadu Alves, do Alaric, em São Paulo, restaurante que combina menu degustação, gastronomia molecular, projeções e storytelling.
“Se desligarmos todas as projeções, a comida precisa continuar de pé”, afirma Alves. Para ele, a tecnologia deve ampliar a relação do cliente com o prato, e não esconder uma cozinha sem qualidade.
Cozinha dentro da história
No Alaric, a proposta nasce da parceria entre Alves e a Class TechExperience, empresa especializada em tecnologia, projeções e imersão. O chef já trabalhava com gastronomia molecular e buscava provocar o público para além do sabor. A colaboração levou essa intenção para todo o ambiente.
“Antes, eu tentava criar uma experiência dentro do prato. No Alaric, conseguimos fazer o ambiente inteiro participar dela”, diz Alves.
Nesse formato, cada prato ocupa um capítulo de uma narrativa. O som pode alterar a atmosfera, as imagens podem contextualizar um ingrediente e os recursos visuais conduzem o público ao longo do jantar. A reserva passa a oferecer uma atividade que não se resume à entrega de comida.
Exemplos fora do Brasil
No Peru, o chef Virgilio Martínez desenvolve no MIL Centro uma experiência relacionada ao território, à cultura e à biodiversidade. Esses elementos têm peso semelhante ao dos ingredientes servidos.
Em Ibiza, o Sublimotion, de Paco Roncero, reúne iguarias finas, realidade virtual, efeitos visuais, música e aromas. O jantar pode custar o equivalente a cerca de 11 500 reais.
Em São Paulo, o Le Petit Chef usa projeções 3D sobre a mesa para apresentar pequenos personagens. Cada etapa da refeição se transforma em uma cena.
A expansão desse modelo ocorre em um momento em que a experiência passa a integrar a ideia de luxo. Como praticamente qualquer comida pode ser entregue em casa, os restaurantes procuram oferecer algo diferente: descoberta, diversão, surpresa e uma lembrança posterior.
A cenografia digital, as projeções e a trilha sonora podem criar expectativa, mas a comida continua no centro. O desafio é fazer com que os recursos tecnológicos e a narrativa dialoguem com o menu sem substituir sua qualidade. Ao final, o restaurante oferece não apenas pratos, mas também tempo, emoção e a participação em uma história.



