A inadimplência empresarial chega a um nível inédito no Brasil, enquanto as famílias comprometem uma parcela maior da renda com dívidas. A Serasa Experian contabiliza 9,2 milhões de empresas com compromissos em atraso, que somam 239 bilhões de reais. Quase 6 400 negócios estão em recuperação judicial ou extrajudicial, o maior patamar da história.
Entre as empresas que recorreram recentemente à proteção da lei estão o Grupo Gennius, dono das redes Habib’s, Ragazzo e Tendal, as varejistas Casas Bahia e Marabraz e a Braskem. Na terça-feira 1º, a Fertilizantes Heringer conseguiu na Justiça a suspensão por sessenta dias da cobrança de dívidas de 834 milhões de reais. Um dia antes, a Chilli Beans anunciou uma reestruturação para tentar renegociar débitos de 600 milhões com os bancos.
Crédito mais restrito
A taxa Selic está em 14% ao ano. O custo elevado dificulta o financiamento das operações e a renegociação de débitos, enquanto os bancos adotam critérios mais rígidos para liberar recursos. As grandes instituições priorizam empréstimos com garantias reais, como imóveis e máquinas. Bancos menores ainda concedem crédito sem essas garantias, mas com juros mais altos e prazos menores.
A Fitch rebaixou a nota de 25 grandes empresas brasileiras entre janeiro e agosto. O volume só fica abaixo das revisões realizadas durante a recessão do governo de Dilma Rousseff.
Para Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban, “Expandir o crédito ficou mais difícil”. A entidade representa o setor financeiro.
O endividamento também atinge os consumidores. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 82% das famílias estão endividadas, o maior índice registrado.
Estímulos e contas públicas
Desde 2023, economistas calculam que Luiz Inácio Lula da Silva colocou 300 bilhões de reais em circulação. Entre as medidas estão a isenção do imposto de renda para quem recebe até 5 000 reais mensais, os programas Gás do Povo e Pé-de-Meia e a autorização para trabalhadores sacarem o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para quitar dívidas.
O governo também lançou o Desenrola, para renegociar débitos, e o Move Brasil, em maio, com financiamento para veículos de motoristas de aplicativo e taxistas. O programa tem orçamento de 30 bilhões de reais e juros subsidiados pelo BNDES, mas enfrenta baixa adesão. Muitos interessados estão inadimplentes ou já chegaram ao limite de endividamento, o que leva bancos a rejeitar a maior parte dos pedidos.
A dívida pública avançou de 72% para 82% do PIB neste mandato. Para especialistas, o aumento dos gastos públicos pressiona a inflação e mantém o Banco Central sob pressão para preservar os juros elevados.
Efeito sobre a atividade
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirma que a autoridade monetária precisa retirar estímulos quando a economia esquenta. O aperto monetário contribuiu para o crescimento de 0,5% do PIB no segundo trimestre deste ano, depois de uma expansão de 1,1% no primeiro. No mesmo período, o consumo das famílias recuou 0,4%.
“O que vivemos são os efeitos do aperto monetário”, afirma Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV. Para Claudio Damasceno, sócio da consultoria RGF, a manutenção dessa fórmula dificulta o cenário nos próximos meses.



