A alta da inadimplência muda a estratégia dos maiores bancos do país. Com famílias e produtores rurais enfrentando maior dificuldade para pagar dívidas, as instituições concentram o crédito em empresas com melhor capacidade de pagamento e possibilidade de oferecer garantias.
Os dados aparecem nos resultados do segundo trimestre de Itaú, Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Santander e BTG Pactual. Juntos, os seis bancos concentram cerca de 72% do crédito do Sistema Financeiro Nacional, segundo levantamento da XP.
Inadimplência avança
O estoque total de crédito alcançou R$ 7 trilhões em junho, alta de 9,69% em 12 meses. A qualidade das carteiras, porém, piorou. O índice de atrasos superiores a 90 dias passou de 3,75% para 4,58% entre junho de 2025 e junho de 2026. Em julho, chegou a 4,88%, maior nível desde o início da série histórica do Banco Central, em 2011.
O volume de contas atrasadas por mais de 90 dias somava quase R$ 336,8 bilhões ao fim do primeiro semestre. Entre as famílias, a inadimplência chegou a 5,42%, acima dos 3,19% registrados nas operações para empresas.
Os balanços indicam que o crédito corporativo ganha espaço. No Itaú, a carteira para pessoas jurídicas cresceu 10,8%, contra 7,8% para pessoas físicas. No Bradesco, as altas foram de 14,1% e 8,4%, respectivamente.
No Bradesco, linhas garantidas, repasses do BNDES e financiamentos corporativos de menor risco ampliaram sua participação. As operações com garantia passaram a representar 61% da carteira. A XP avalia que os bancos devem continuar direcionando recursos a empresas com maior capacidade de pagamento, ainda que isso limite o crescimento da rentabilidade.
Pressão no agronegócio
O agronegócio é a exceção dentro do crédito empresarial. A inadimplência dos produtores rurais subiu de 3,55% para 7,48% em junho, mais que dobrando em um ano. Em julho, atingiu 8,79%, também o maior nível da série iniciada em 2011.
A piora ocorre após a queda nos preços de commodities, o aumento dos custos de produção e o crescimento dos pedidos de recuperação judicial entre produtores rurais. A XP prevê que os efeitos ainda apareçam nos balanços dos bancos nos próximos trimestres.
O Banco do Brasil concentra mais de R$ 421,55 bilhões em financiamentos ao agronegócio e detém mais de 60% da carteira agro do país, conforme a comparação da XP. No banco, o crédito cresceu 1,5% em um ano, enquanto o custo de crédito chegou a R$ 37,3 bilhões no primeiro semestre, alta de 43,3% em relação a dezembro. O retorno sobre patrimônio ficou em 8,3%.
Desempenho dos bancos
O Itaú teve expansão de 9,6% na carteira em 12 meses e manteve a inadimplência acima de 90 dias em 1,9%. O estágio 3 da carteira passou de 4,01% para 4,34% entre dezembro e junho. O retorno sobre patrimônio foi de 24,3%.
O BTG Pactual ampliou a carteira em 24% em 12 meses. O crescimento veio principalmente dos empréstimos corporativos, que avançaram 21,3%, e do crédito pessoal, com alta de 6,2%. O retorno sobre patrimônio alcançou 26,7%.
A carteira do Bradesco cresceu 11,6%, impulsionada por empresas, linhas garantidas, capital de giro e operações ligadas ao BNDES. O indicador de estágio 3 caiu de 7,22% para 7,08%.
No Santander, a carteira total avançou 5,8% em 12 meses. O crédito para pessoas físicas recuou 0,1%, enquanto as operações para pequenas, médias e grandes empresas cresceram 8,1%. O banco registrou retorno sobre patrimônio de 12,5% e foi o único do grupo com queda de lucro na comparação anual.



