Quase 84 milhões de brasileiros estão inadimplentes em agosto, segundo a Serasa Experian. O número representa um recorde histórico e indica que mais da metade da população adulta tem pelo menos uma conta em atraso.
O aumento das dívidas ocorre em ritmo superior ao da renda. O valor médio devido por inadimplente passa de 3 820 reais no início de 2021 para 7 050 reais atualmente, uma alta de 81%. No mesmo período, o salário médio avança de 2 490 para 3 760 reais, crescimento de 51%, segundo o IBGE.
Pressão sobre o orçamento
Em junho, as famílias comprometem 26,6% da renda com parcelas e juros de dívidas bancárias, conforme dados do Banco Central. O índice é o maior da série e supera os cerca de 20% registrados em 2019 e os aproximadamente 16% observados até 2010.
O endividamento pode financiar compras, projetos e negócios, mas se torna um problema quando as prestações reduzem o dinheiro disponível para despesas básicas ou para o pagamento do próprio crédito. Em muitos casos, empréstimos e cartões são usados para cobrir os gastos do mês, criando parcelas que pressionam os períodos seguintes.
O total de consumidores inadimplentes permanece entre 59 milhões e 61 milhões de 2016 a 2020. A partir de 2021, porém, cresce continuamente e incorpora cerca de 20 milhões de pessoas às estatísticas. O levantamento da Serasa inclui dívidas bancárias e contas de água, luz e condomínio.
Renegociação e crédito
O governo federal retoma o Desenrola Brasil por quatro meses em 2026, depois de lançar o programa em 2023. De acordo com a Federação Brasileira de Bancos, 9 milhões de famílias renegociam dívidas na rodada mais recente. Mesmo assim, o total de inadimplentes continua subindo depois de maio, quando a nova edição começa.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirma que novas rodadas são avaliadas. Na mesma cerimônia, o presidente Lula assina um reajuste de 15% no Bolsa Família, após quatro anos sem aumento.
A inflação, os juros elevados e o crescimento da oferta de crédito estão entre os fatores associados à alta do endividamento. Em julho, o saldo de empréstimos com recursos livres para pessoas físicas chega a 2,5 trilhões de reais, alta de 10% em um ano e de 107% desde o início de 2021, segundo o Banco Central.
A digitalização também muda o mercado. De acordo com a Equifax Boa Vista, o saldo das operações de neobanks cresce 360% de 2021 a 2025, ante 36% nos bancos tradicionais. A expansão amplia o acesso de trabalhadores informais e pessoas de baixa renda a contas, cartões e empréstimos, mas também aumenta a exposição de consumidores com menor margem no orçamento.
A Selic está em 13,75% ao ano e não fica abaixo de 10% desde 2022. Para Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban, uma solução para o endividamento depende de mudança no cenário macroeconômico, com ajuste fiscal.



