O risco mais provável para quem investe em títulos públicos brasileiros não é o governo deixar de pagar, mas a inflação reduzir o poder de compra do valor recebido. Economistas, gestores e assessores citados no texto não acreditam em um calote da dívida pública neste momento.
A maior parte da dívida do Brasil está em reais. Como o governo pode emitir a própria moeda, a estratégia mais provável em uma crise fiscal seria refinanciar os vencimentos com novas dívidas, ampliando a quantidade de dinheiro em circulação. Se a produção e o crescimento econômico não acompanharem esse aumento, os preços tendem a subir.
“O país não dá calote. Inflaciona”, resume André Leite, diretor de investimentos da TAG. Nesse cenário, o Tesouro Direto continuaria pagando os títulos na data prevista e conforme a taxa contratada. O problema é que o dinheiro poderia comprar menos bens e serviços.
Como a inflação reduz o retorno
Um título prefixado contratado a 14% ao ano, por exemplo, pode perder poder de compra se a inflação chegar a 15% ao ano. Nesse caso, o investidor recebe o valor combinado, mas não obtém ganho real nem preserva integralmente o poder de compra do investimento.
A inflação também reduz o peso real da dívida pública. Em 2025, cerca de 42% do orçamento total do governo foi destinado ao pagamento de juros e à amortização da dívida. Com salários, preços e arrecadação maiores, o valor nominal da dívida pode permanecer igual enquanto sua relação com o volume de dinheiro da economia diminui.
Esse efeito ocorreu após a Selic cair para 2% ao ano durante a pandemia, enquanto a inflação chegou a 10% ao ano. A dívida bruta equivalia a 87% do PIB em 2020, recuou para 77% em 2021 e chegou a 72% em 2022.
Para Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Research, a inflação pode se tornar uma possibilidade relevante se não houver ajuste fiscal em 2027. “Se o governo não fizer um grande ajuste fiscal em 2027, é uma probabilidade muito alta. É o nosso cenário-base”, afirma.
Alternativas citadas
Entre os ativos apontados como proteção estão os títulos Tesouro IPCA+, que combinam a correção pela inflação com uma taxa de juros real. Esses papéis, porém, sofrem marcação a mercado e podem oscilar antes do vencimento. Mantidos até o fim do prazo, pagam a taxa contratada e a correção inflacionária prevista.
Também são citadas LCIs e LCAs indexadas ao IPCA, isentas de imposto de renda, desde que o investidor avalie a instituição emissora. Esses títulos têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para aplicações de até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, considerando principal e juros.
Dólar, imóveis, terras e commodities aparecem como alternativas de diversificação e proteção em um ambiente de inflação e deterioração fiscal. O texto ressalta, porém, que a possibilidade de inflação mais alta depende das decisões do próximo governo e não representa uma certeza nem um cenário imediato.



