A inteligência artificial pode ampliar a capacidade de projetar cenários futuros no direito, mas ainda não define, sozinha, a estratégia de um advogado. Essa é a principal aproximação entre o jogo Go, o documentário “AlphaGo” e o processo judicial.
No contencioso estratégico, a antecipação aparece na preparação de provas, na formulação de teses para os tribunais superiores e na decisão sobre recursos ou incidentes processuais. Também envolve avaliar quando negociar, quando resistir, qual foro escolher e qual risco aceitar. Essas escolhas continuam associadas ao juízo profissional.
O aprendizado com o AlphaGo
O documentário “AlphaGo”, lançado em 2017 e disponível no YouTube, apresenta Demis Hassabis, fundador da DeepMind, startup vendida para a Google em 2014. A produção acompanha o “Google DeepMind Challenge Match”, realizado em Seul entre 9 e 15 de março de 2016.
Na disputa, o programa derrotou Lee Sedol, campeão mundial de Go por 18 vezes, pelo placar de 4 a 1. A equipe liderada por Hassabis buscava demonstrar que a máquina poderia superar o jogador ao calcular mais possibilidades e executar movimentos que não faziam parte do repertório humano habitual.
Um desses lances ficou conhecido como jogada “37”. Feito na segunda partida, o movimento foi inicialmente interpretado por comentaristas e especialistas como um erro, mas depois mostrou valor estratégico excepcional. O episódio é apresentado como um exemplo da capacidade de a máquina encontrar soluções originais.
Previsão sem substituição da decisão
De origem chinesa, o Go é disputado por dois jogadores, que colocam pedras pretas e brancas nas intersecções de um tabuleiro. O objetivo é controlar territórios e capturar pedras adversárias. Em regra, o tabuleiro tem 19×19 linhas, e a pontuação reúne o território dominado e as peças capturadas.
A relevância do jogo para o direito está menos no resultado de cada lance do que na avaliação das posições que podem surgir depois de várias jogadas. No processo, as partes também precisam considerar os próximos movimentos da contraparte e as consequências possíveis de cada medida.
Ferramentas preditivas podem estimar o comportamento de um órgão julgador e interpretar normas. Elas, porém, não escolhem necessariamente a tese, o momento de uma transação ou a dimensão do risco. A inteligência artificial tende a realizar tarefas jurídicas em grande velocidade e pode aumentar a capacidade de análise, sem eliminar sensibilidades e intuições humanas nem transferir ao algoritmo toda a condução do caso.



