O movimento camponês haitiano Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen completa 40 anos em setembro de 2026 sem realizar a celebração nacional planejada. Com estradas bloqueadas por gangues e tensão na região da capital, a organização decide promover dezenas de assembleias locais nos próximos meses, com debates, críticas e autocríticas junto às bases.
Criado oficialmente em setembro de 1986, o Tèt Kole atua na organização popular, na formação de base e na defesa dos direitos da população rural. A entidade também trabalha com agroecologia, soberania alimentar, educação popular, preservação ambiental, economia social e solidária e igualdade de gênero.
Jean-Jacques Henrilus, um dos fundadores e integrante da Coordenação Nacional, afirma que o movimento consegue mobilizar pessoas nos 10 departamentos do país e aproximar camponeses para enfrentar doenças, mortes e a exploração do Estado. Para ele, a organização ainda está distante de uma sociedade em que quem trabalha seja quem come, mas não deve desistir.
Origem e atuação
A articulação começou a ser construída durante a ditadura de François e Jean-Claude Duvallier, entre 1956 a 1986, quando camponeses eram alvo de repressão, prisões e perda de terras e animais. Desde a década de 1970, reuniões clandestinas eram realizadas em propriedades rurais, em meio a trabalhos comunitários, porque as liberdades de associação e expressão eram limitadas.
O primeiro encontro nacional ocorreu em 6 de setembro de 1986, após a queda do regime de Duvallier. Mesmo com o retorno da democracia, a organização afirma que a marginalização e a violência contra a população camponesa continuaram.
Um dos episódios citados é o massacre de Jean Rabel, em 23 de julho de 1987, quando 139 camponeses foram assassinados por reivindicarem terra. O movimento continuou atuando na região, que hoje é apresentada como exemplo de conquistas na luta pela terra e pela organização popular.
No exterior, o Tèt Kole integra a CLOC-Vía Campesina, a Alba Movimentos e a Assembleia Internacional dos Povos. A organização também mantém uma parceria com o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST) do Brasil, que mantém uma brigada permanente de militantes no Haiti desde 2009. Pierre-Mary Louis, integrante da Direção Executiva, define a relação como “uma relação de irmandade”.
Crise e posição política
A crise de segurança interrompe o transporte da produção dos pequenos agricultores aos mercados. Louis diz que essa relação está praticamente interrompida há cinco anos. As restrições também impedem assembleias gerais e grandes mobilizações nacionais.
O Centro Nacional de Montrouis, construído ao longo de 15 anos em uma área de 14 hectares voltada à agroecologia, foi invadido e saqueado em 2024. O local permanece inacessível aos integrantes do movimento.
A direção do Tèt Kole rejeita a ideia de que a violência seja resolvida apenas com intervenção estrangeira ou mudança de governo. Para a organização, a crise integra um projeto de recolonização do Haiti e de exploração da população e dos recursos naturais.
O movimento também critica a realização de eleições em um ambiente considerado antidemocrático. Pierre-Mary Louis defende uma mudança estrutural e a construção de um Estado popular e socialista, com o poder nas mãos do povo.




