O jurista, filósofo e professor Silvio Almeida afirma que práticas autoritárias também podem surgir no interior da esquerda, especialmente quando a desqualificação pessoal substitui o debate sobre ideias. A reflexão foi publicada nas redes sociais e em seu canal no YouTube sob o título “Fascismo de Esquerda”.
A análise parte de uma entrevista do ator Wagner Moura ao apresentador Pedro Bial. Na ocasião, Moura usou a expressão “fascisminho de esquerda” para criticar posturas intolerantes no debate público. Almeida considera o termo historicamente impreciso, porque fascismo e nazismo estão ligados à extrema-direita e ao anticomunismo. Ainda assim, diz que a expressão identifica um comportamento real: a tentativa de impedir a divergência por meio de classificações prévias.
Identidade e bloqueio do debate
Segundo Almeida, esse mecanismo aparece em discussões sobre raça, gênero e sexualidade. Em vez de examinar o conteúdo de um argumento, a conversa é deslocada para a identidade de quem fala, com perguntas como “Quem é você para falar disso?”.
O professor critica o uso do conceito de “lugar de fala” como substituto da argumentação. Para ele, a posição social pode ser transformada em autoridade intelectual ou em instrumento de censura, enquanto temas como história, economia, instituições, trabalho e poder deixam de ser analisados.
Almeida também rejeita o chamado “anti-identitarismo militante”, quando qualquer discussão sobre opressões é encerrada com a acusação de “puro identitarismo”. “Os conteúdos são diferentes, mas a estrutura intelectual é muito parecida”, afirma, ao comparar os dois procedimentos. Para o jurista, ambos classificam uma questão antes de compreender seu funcionamento.
Ele relaciona essa recusa à história material do racismo, à formação dos mercados de trabalho, à ligação entre escravidão e classes e à divisão sexual do trabalho no capitalismo.
Mediação e pensamento crítico
Ao recuperar uma formulação do historiador Michel Gherman, Almeida apresenta o fascismo como uma rebelião contra o abstrato e uma recusa da mediação. Leis, instituições, procedimentos, provas e direitos criam uma distância entre o desejo e sua realização. O autoritarismo, afirma, tenta converter vontade em ordem, ressentimento em sentença e antipatia em exclusão.
Para enfrentar essa lógica, Almeida recorre a Herbert Marcuse e Ernst Bloch. Ao comentar Razão e Revolução, de Marcuse, publicado em 1941, destaca o “pensamento negativo”, que questiona a ordem existente e suas contradições. Ao citar O Princípio Esperança, de Bloch, ressalta a ideia de “ainda-não”: possibilidades emancipatórias presentes que ainda não foram realizadas.
A tradição crítica, segundo Almeida, precisa negar o que existe e imaginar o que ainda não existe. Para ele, a perda da capacidade de lidar com contradições e de imaginar alternativas enfraquece esse projeto.



