SÃO PAULO — A Polícia Federal identifica a Marmaris Corretora de Câmbio, instalada em uma galeria da avenida Paulista, como parte central de um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação aponta que a empresa internalizava no Brasil valores enviados do exterior por meio do dólar-cabo, sistema clandestino de compensação financeira fora da rede bancária oficial.
A corretora funciona em uma sala próxima à avenida Brigadeiro Luís Antônio. Segundo a PF, o proprietário, Marcos Alexandre Agustoni, administrou uma remessa de US$ 1,7 milhão, equivalente a cerca de R$ 8,67 milhões, com destino a Roterdã, na Holanda. As informações foram obtidas após a quebra dos sigilos financeiro e telefônico de um dos alvos da operação.
Durante buscas na sede da empresa, os agentes apreenderam R$ 120,5 mil, US$ 25,9 mil, 2.625 euros, celulares e computadores. A investigação também aponta que a segurança privada do local era feita por ex-integrantes expulsos das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). Os nomes não aparecem nos autos.
Investigação e medidas judiciais
O inquérito começou em 2021, em João Pessoa, após a prisão de dois italianos apontados como integrantes da ‘Ndrangheta. Um deles, Vincenzo Pasquino, foi extraditado e prestou depoimento à PF sobre a relação entre Agustoni e outros investigados.
Em 2024, quando a operação foi deflagrada, a Justiça determinou a prisão preventiva do empresário. Ele fugiu do condomínio onde morava enquanto policiais aguardavam a entrada no prédio. Depois de oito meses foragido, foi preso em agosto do ano passado e conseguiu liberdade provisória em março deste ano.
Agustoni passou a cumprir medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica, o recolhimento noturno e a proibição de deixar a comarca sem autorização. O Ministério Público Federal denunciou o empresário e outras nove pessoas por organização criminosa e associação para o tráfico. Um inquérito separado apura lavagem de dinheiro.
Em julho deste ano, a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo comunicou ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região uma possível violação no monitoramento eletrônico. A defesa afirmou que o deslocamento ocorreu para buscar as filhas na escola. O tribunal ainda não decidiu sobre o caso.
A defesa de Agustoni, representada por Airton Jacob Gonçalves Filho, declarou que se manifestaria, mas não apresentou resposta oficial. Na Justiça, os advogados negam ligação do empresário com o tráfico e afirmam que as acusações se limitam à área financeira.
Estruturas semelhantes
A investigação também registra o uso de mecanismos parecidos em Santa Catarina. Um inquérito da PF aponta que o Primeiro Grupo Catarinense (PGC), aliado ao Comando Vermelho (CV), movimentava recursos por meio de recebimentos fracionados em euros e negociações com criptomoedas.
O esquema seria liderado por Ângelo Scotti Júnior, conhecido como Cabelo, preso em maio deste ano. A coordenação dos repasses caberia ao empresário Maycon Marcos, dono da Smart Business, financeira que prometia rendimentos mensais de 3% a 5%.
Interceptações autorizadas pela Justiça registraram conversas em que Maycon Marcos tratava Scotti como cliente diferenciado e perguntava em nome de quais terceiros os investimentos deveriam ser registrados. As defesas de Scotti e de Maycon disseram que vão se manifestar depois de obter acesso integral aos autos.



