FLORIANÓPOLIS — Santa Catarina se tornou o principal destino de cidadãos russos no Brasil desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Desde 24 de fevereiro de 2022, o estado recebeu 1.317 pedidos de residência, acima dos 881 registrados em São Paulo. Florianópolis concentra 1.176 russos, quase 90% do total no estado.
A chegada também aparece nos registros de nascimentos. De 2020 até julho de 2026, 492 crianças de mães russas nasceram em Santa Catarina, conforme a Secretaria de Estado da Saúde. O número de partos passou de 13 em 2022 para 113 em 2023, alta de 769%. No ano passado, foram 123 bebês.
A escolha pelo Brasil está ligada, entre outros fatores, à possibilidade de a criança nascida no país obter cidadania brasileira pelo jus soli. O passaporte brasileiro aparece na 16ª posição do ranking global de mobilidade da Henley & Partners, enquanto o russo ocupa a 48ª posição.
Negócios criados por imigrantes
Parte dos russos deixa o Brasil depois do nascimento dos filhos, mas outra parcela permanece e abre negócios. A presença se concentra em bairros como Jurerê, Canasvieiras, Ingleses e Campeche. Comunidades no Telegram voltadas a eslavos em Florianópolis reúnem mais de 10 mil membros.
Desde janeiro de 2022, 141 empresas foram abertas na cidade com ao menos um sócio russo, segundo dados da Junta Comercial de Santa Catarina. O número equivale a pelo menos 12% dos russos formalizados na capital, em comparação com registros da Polícia Federal.
Eugênio Trifonov, 39, deixou a topografia na Rússia e transformou o antigo hobby de preparar doces em profissão. Depois de vender sobremesas pela internet, ele abriu o café Kiss My Cake, em Jurerê, com o parceiro Luyllis Telles Trifonov. O cardápio inclui receitas russas, como Medovik, Napoleon, pelmeni e borsch, além de refeições.
“Comecei a fazer tortas russas porque tinha saudades e porque as sobremesas brasileiras são muito doces”, diz Eugênio. O café recebe principalmente russos, mas o público brasileiro cresce e os pedidos de encomendas triplicaram.
Anastasia Rossa, 31, abriu o estúdio Soul Me, também em Jurerê. O espaço oferece pilates, yoga e dança em russo, português e inglês. Duas russas e cinco brasileiras trabalham no local, que recebe alunos de diferentes nacionalidades. As aulas especiais para grávidas atraem principalmente russas.
No Centro, o restaurante Matryoshka — Sabores do Leste Europeu funciona há mais de sete anos e hoje recebe mais brasileiros do que russos. No Norte da Ilha, Tatiana Treskova e Roman Gorodishchenskii administram a locadora Carro4You.
Trabalho informal e rede de apoio
Muitos serviços continuam voltados à própria comunidade. Fóruns no Telegram anunciam comidas congeladas, fotografia, babá, limpeza, veículos e eletrodomésticos. A rede também é usada por pessoas que precisam movimentar recursos entre Rússia e Brasil diante das sanções ao sistema bancário russo.
Eugênio Lavrov, nome fictício, deixou São Petersburgo em março de 2023 com a mulher e duas filhas. Após viver por dois anos em Mar del Plata, na Argentina, a família se mudou para Florianópolis. Ele faz trabalhos de mecânica, elétrica, transporte e limpeza, enquanto a esposa vende comida congelada. A filha caçula, de 1 ano e 5 meses, nasceu no Brasil.
Natalia Kariukina, 34, e Stanislav Kariukin, 37, abriram uma sauna russa no Rio Tavares. O casal veio da Sibéria, onde ela dirigia uma empresa e ele trabalhava como programador. A Banya recebe grupos de cinco a oito pessoas por sessões de até quatro horas. O preço médio é de R$ 500 por pessoa, e a maioria dos clientes é russa.
Ucranianos também chegam
Florianópolis recebe ainda ucranianos, bielorrussos e cidadãos de outras ex-repúblicas soviéticas. Karina Nakonechna, 30, inaugurou o salão It’s My Beauty Lab no Centro após trabalhar com manicure na Coreia do Sul. A equipe chegou a oito pessoas de diferentes nacionalidades e oferece manicure, pedicure, cílios, sobrancelhas e massagem.
A mãe de Karina deve chegar ao Brasil depois que um bombardeio destruiu a escola onde trabalhava, no interior da Ucrânia. Enquanto a guerra continua, russos e ucranianos estabelecem negócios e reorganizam a vida no Sul do país.



